Mesmo sepultadas, as CPIs dos bingos e do caso Santo André resultaram em desgaste no relacionamento entre a oposição e o governo. E novos lances, mesmo que mais tímidos, ainda devem ocorrer na semana que vem, como a obstrução das votações de medidas caras ao governo no Senado.
Grande parte do atrito veio tanto de falta de experiência, quanto da dificuldade do PT em fechar questão para temas caros ao partido, como a realização de CPIs, muito defendidas pela legenda no passado.
``O desgaste foi fruto de inexperiência de lidar com crise como essa'', disse o cientista político Christopher Garman, da consultoria Tendências. Ele também afirma que é ``custoso ao partido'' decidir-se contra investigações políticas.
Esta situação se refletiu em duas provocações à oposição. No início da crise do ex-assessor da Casa Civil, Waldomiro Diniz, suspeito de corrupção, o partido sugeriu ampliar a CPI sugerida pelo PSDB, englobando os escândalos do governo de Fernando Henrique Cardoso (1995-2002).
E, na quinta-feira, o líder do governo no Senado, Aloizio Mercadante (PT-SP), listou as CPIs que PSDB e PFL teriam impedido no governo passado. No mesmo dia, a CPI dos bingos perdeu suas chances na Comissão de Constituição e Justiça, após os líderes não terem indicado integrantes.
A primeira provocação resultou em recuo e a segunda levou o líder do PSDB, Arthur Virgílio (AM), a revidar apresentando um requerimento com assinaturas suficientes para realizar uma CPI que investigasse o caso de possível corrupção na prefeitura de Santo André, incluindo o assassinato do prefeito Celso Daniel.
O governo teve que atuar e, nesta sexta-feira, dois senadores (Papaléo Paes, do PMDB, e Paulo Otávio, do PFL) retiraram suas assinaturas, levando Virgílio a admitir que não conseguiria substitutos.
O embate foi tema de almoço na casa do presidente do Senado, José Sarney, com a presença dos ministros José Dirceu (Casa Civil), Aldo Rebelo (Coordenação Política), além do líder do PMDB, Renan Calheiros (AL), e de Mercadante.
``Nossa avaliação (da semana) foi muito boa, muito positiva. Nós ganhamos, na verdade, praticamente tudo (contra a oposição)'', disse Calheiros a jornalistas após o encontro, sem admitir em público o desgaste dessas vitórias.
Virgílio já promete obstruir os trabalhos do Senado na semana que vem. ``Estão vindo 15 medidas provisórias da Câmara e não temos nenhuma boa vontade com elas'', disse.
Na próxima semana, está agendada uma reunião dos líderes com o objetivo de demover os adversários da idéia de recorrer à obstrução.
Analistas afirmam, no entanto, que a nova relação entre o governo e a oposição foi apenas apressada pelo caso Waldomiro Diniz. Na verdade, passadas as reformas --que também eram defendidas pela oposição-- agora o que se vê é uma melhor definição dos lados, ainda mais num cenário pré-eleitoral.
Calheiros negou que o tema cargos tivesse sido tratado no almoço. Fala-se no Congresso que ele é um dos cotados a substituir Mercadante no posto de líder do governo, numa eventual transferência do senador petista para um ministério. Uma possibilidade seria a ida de Mercadante para a Saúde, substituindo Humberto Costa.
Como porta-voz de algumas das decisões atabalhoadas do governo e da bancada petista, Mercadante estaria, no mínimo, ''chamuscado'' no seu papel de líder do governo.