Após ser pressionado por integrantes do Judiciário, o presidente Fernando Henrique Cardoso voltou atrás e resolveu retirar da Câmara um projeto encaminhado por ele próprio em dezembro que sugere a redução da competência dos Juizados Especiais da Justiça Federal. O governo tinha proposto a modificação antes mesmo de os órgãos começarem a funcionar. A instalação dos juizados em vários Estados, inclusive São Paulo, está prevista para ocorrer na próxima segunda-feira. Concebidos com o objetivo de tornar mais ágil a tramitação de causas que envolvam até 60 salários mínimos (R$ 12 mil), os juizados corriam o risco de ter sua importância diminuída se o Congresso aprovasse o projeto encaminhado no final do ano por Fernando Henrique. O alerta foi feito nesta terça-feira pelo presidente da Associação dos Juízes Federais do Brasil (Ajufe), Flávio Dino. Segundo ele, o projeto do Executivo sugeria que as causas tributárias deixassem de ser competência dos juizados especiais. O presidente do Superior Tribunal de Justiça (STJ), Paulo Costa Leite, também estranhou a proposta de mudança às vésperas da instalação dos juizados. "Me causa estranheza alterar uma lei antes dela entrar em vigor", disse Costa Leite. No final da tarde desta terça-feira, a Advocacia-Geral da União (AGU) informou que o governo decidiu retirar o projeto para uma análise mais detalhada, que deverá ser feita com a ajuda de especialistas, dentre os quais, ministros de tribunais superiores. Com a mudança que tinha sido proposta pelo Executivo, as micro e pequenas empresas não poderiam mais usar esses órgãos para esclarecer disputas. "Como as micro e pequenas empresas não se encaixam nas principais competências previstas para os Juizados Especiais Federais - causas previdenciárias, sobre o Sistema Financeiro da Habitação (SFH) ou envolvendo servidores públicos - a exclusão das causas tributárias tiraria o sentido de sua participação nesse novo instrumento do Judiciário", analisou o presidente da Ajufe. Não é a primeira vez que o Executivo e o Judiciário se desentendem por causa dos juizados. Antes deste episódio, os dois Poderes já tinham disputado a paternidade da idéia. Nesta terça-feira, no programa Palavra do Presidente, Fernando Henrique tentou esclarecer as dúvidas sobre a autoria da idéia. "Os juizados especiais nascem por força de uma emenda constitucional de minha iniciativa", afirmou. "Mas, aqui quero fazer Justiça: estamos conseguindo realizar esse sonho antigo do nosso povo graças à atuação dos ministros do Superior Tribunal de Justiça e dos juízes federais que elaboraram a proposta inicial da lei e tomaram todas as providências necessárias para a implantação desses juizados especiais", completou. Para Fernando Henrique, a criação dos juizados será "uma das relevantes obras sociais" de seu governo. "Talvez a mais expressiva reforma do Judiciário federal já realizada no Brasil, porque beneficia o homem que carece uma Justiça rápida e segura, o verdadeiro cliente do Poder Judiciário", concluiu o presidente. Nos primeiros seis meses, os juizados deverão concentrar-se exclusivamente nas causas previdenciárias. De acordo com informações da AGU, os Juizados Federais poderão solucionar em até 180 dias discussões entre o Instituto Nacional de Seguro Social (INSS) e segurados. Segundo o órgão, na Justiça Federal, essas ações podem demorar até seis anos para serem decididas. "Cerca de 80% de 1,5 milhão de causas do INSS têm valor inferior a 60 salários mínimos", afirmou a AGU. O órgão acrescentou que 81% dos mais de 40 mil precatórios relacionados ao pagamento de benefícios estariam em condições de tramitar nos juizados especiais.
Governo desiste de mudar juizados especiais
Terça, 08 de Janeiro de 2002 às 22:58, por: CdB