Apesar do protesto de governadores e prefeitos à inclusão da repartição da Cide na emenda à reforma tributária e das reclamações sobre a escassez de concessões, o governo acredita na unidade de sua base e na adesão de parte da oposição para garantir a aprovação da matéria no plenário da Câmara dos Deputados na noite desta quarta-feira.
Na avaliação dos governistas, a reforma tributária deverá ter menos deserções do que na votação da reforma previdenciária. O mapeamento dos votos feito até agora revela que as dissidências no PMDB e PP serão bem menores.
- É humanamente impossível acreditar que ninguém do PSDB e do PFL vai votar com a gente - avaliou o líder do PSB, Eduardo Campos (PE). - Ninguém vai querer fazer o papel de perdedor.
Com votos do PSDB e PFL, a expectativa é de que a proposta tributária seja aprovada em primeiro turno por 340 votos. A reforma da Previdência foi aprovada no primeiro turno com 358 votos favoráveis. São necessários 308 votos para a aprovação.
Ao mudar o acerto sobre a Cide --que antes seria partilhada por meio de uma medida provisória e não previa a participação dos municípios-- a tática do governo foi assegurar o apoio a todo o restante da reforma tributária.
Uma vez amarrado o texto, os deputados que votarem contra a reforma estarão votando também contra a partilha do imposto sobre combustíveis e outros pontos de seus interesses já atendidos pelas últimas concessões feitas pelo governo federal na proposta.
- Quem votar contra, estará votando contra a prorrogação da Zona Franca (de Manaus), a Lei de Informática, a desoneração das exportações... É muito difícil os deputados votarem contra isso - avalia o vice-líder do governo Beto Albuquerque (PSB-RS).
Além disso, atender aos prefeitos com recursos da Cide faz parte dos pleitos da base aliada.
Baixando a poeira
Com as mudanças de última hora que estão sendo feitas na emenda aglutinativa, é provável que a temperatura baixe e nem mesmo a inclusão da Cide no texto da reforma retire o apoio dos governadores.
Para impedir o fracasso da reforma, foi preciso que o comando político do Palácio do Planalto usasse o rolo compressor sobre seus aliados.
A decisão foi tomada durante reunião com o ministro-chefe da Casa Civil, José Dirceu, que afirmou que o governo queria votar a reforma com ou sem acordo. "Vamos usar todo o rolo compressor" , avisava Albuquerque ao sair do encontro na noite de segunda-feira.
Com isso, foi preciso enquadrar as bancadas aliadas que reivindicavam a inclusão de inúmeras concessões na emenda aglutinativa. Como argumento, os líderes governistas lembravam a toda hora qual é o papel de uma base governista.
- Vamos unidos para o plenário para aprovar a reforma - enfatizou nesta tarde o vice-líder deputado Professor Luizinho (PT-SP).
Em conversas com jornalistas, o governador da Paraíba, Cássio Cunha Lima (PSDB), que reclamava da quebra de acordo sobre a Cide, acabou admitindo o apoio a reforma na votação nesta quarta.
Problemas com outros governadores como os do PSB --Ronaldo Lessa, de Alagoas, Vilma Faria, do Rio Grande do Norte, e Paulo Hartung, do Espírito Santo-- já estão sendo pacificados.
O maior foco de resistências tanto na base quanto na oposição está entre os deputados mineiros, uma vez que o governador Aécio Neves (PSDB) é o que mais tem reclamado da reforma do governo.