Na última visita de um líder brasileiro ao Egito, em 1870, d. Pedro II tinha entre suas principais tarefas fotografar os históricos monumentos do país. Nesta segunda-feira, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva estará certamente ocupado com temas como comércio bilateral e assuntos internacionais, neste que é o país de sua viagem com maior influência política do Oriente Médio.
Junto com a Arábia Saudita, o Egito desfruta de uma posição privilegiada no xadrez político regional. Seu presidente, Hosni Mubarak, esteve por trás de praticamente todas as negociações de paz entre palestinos e israelenses, e é o articulador " oficial " de acordos de cessar-fogo com grupos extremistas como Hamas e Jihad Islâmica.
O país travou três guerras com Israel (em 1948, 67 e 73), mas foi o primeiro a selar um acordo inédito de paz com o Estado judeu, para indignação dos vizinhos árabes. O acordo lhe propiciou laços comerciais bilaterais de grande importância para a economia egípcia.
Com 71 milhões de habitantes, o Egito tem também um mercado potencial para o Ocidente. Com a ajuda de um programa do FMI nos anos 90, o governo conseguiu reverter o caos econômico das décadas anteriores. Mubarak deu início a um processo de liberalização econômica que trouxe crescimento e investidores externos ao país.
A inflação caiu de 20% em 1991 para 3% em 2000, o déficit fiscal foi domado e uma taxa única de câmbio introduzida. O setor privado ganhou peso, na medida que o governo dava início à privatização.
A situação econômica, porém, voltou a deteriorar nos últimos anos. Para acalmar os eleitores, irritados com as políticas liberalizantes de Mubarak, o governo diminuiu o ritmo das mudanças, provocando queda no investimento externo. Ataque terrorista em 1997 em Luxor - um dos pontos turísticos do país - reduziu brutalmente a receita com o turismo. O 11 de setembro, as tensões em Israel e a guerra no Iraque deram outro golpe à economia do país.
Economistas, porém, calculam que as reformas do governo propiciarão uma retomada da atividade econômica, com expansão de 3% do PIB este ano.
As agruras econômicas são um entrave ao desenvolvimento sustentado, mas o futuro político do Egito também provoca incertezas. No mês passado, Mubarak passou mal num discurso no Parlamento e foi retirado às pressas do plenário. Foi o primeiro sinal público de fraqueza do presidente de 75 anos, 22 destes no poder. Médicos disseram ser gripe, mas o incidente abriu o debate no país sobre quem assumirá quando Mubarak morrer.
Analistas acreditam que o presidente está esperando a hora certa para nomear seu filho, Gamal, como vice. De fato, o jovem Mubarak ganhou destaque recentemente ao promover reformas em seu Partido Nacional Democrático (PND).
Lula passará dois dias no Egito. Além de preencher uma lacuna histórica centenária, a escolha do país constitui uma chance para ampliar o diálogo político e estimular as trocas comerciais. Já houve uma aproximação dos dois países na OMC devido à entrada do Egito no G-20. O Egito também sedia a Liga Árabe, cuja próxima reunião Lula defende que seja feita no Brasil, com parceiros do Mercosul.
Governo brasileiro vai ao Egito pela primeira vez desde 1870
Segunda, 08 de Dezembro de 2003 às 07:12, por: CdB