Globo é investigada em novos inquéritos na Polícia Federal
As Organizações Globo, holding que controla serviços de comunicação e mantém presença nos mais diversos segmentos industriais, no país e no exterior, acrescentaram nas últimas semanas novos escândalos ao rol de outros a que respondem na Justiça Federal
Sábado, 27 de Fevereiro de 2016 às 14:47, por: CdB
As Organizações Globo, holding que controla serviços de comunicação e mantém presença nos mais diversos segmentos industriais, no país e no exterior, acrescentaram nas últimas semanas novos escândalos ao rol de outros a que respondem na Justiça Federal
Por Redação - do Rio de Janeiro
Presente como suspeito, cúmplice ou principal réu em inquéritos que envolvem desde a evasão de divisas em paraísos fiscais, sonegação bilionária de impostos até crimes contra o meio ambiente, o grupo empresarial dos herdeiro do finado empresário Roberto Marinho — um dos principais colaboradores da ditadura civil-militar instalada no golpe de 1964 — segue, à risca, as orientações do patriarca.
A mansão em Parati, foi construída em terreno público federal, segundo laudo pericial
Embora os processos contra as empresas do grupo mantenham-se próximos da inércia, há décadas nos meandros judiciais, a ação de jornalistas independentes, em sites e blogs como o Diário do Centro do Mundo e O Tijolaço, mais recentemente, tem levado setores públicos a desbaratar a atividade criminosa em curso nas repartições governamentais e, na outra ponta, a rever o envolvimento em práticas ilícitas de acionistas do grupo empresarial que detém marcas como TV Globo, Globonews, O Globo, Extra!, Valor, Rádio Globo, Rádio Eldorado e G1, entre outras; além da participação societária em propriedades que integram um patrimônio da ordem de US$ 50 bilhões (perto de R$ 200 bilhões). Os cálculos são da revista norte-americana Fortune, especializada em contabilizar recursos alheios.
Os questionamentos à prática empresarial da família Marinho foram ampliados após “um dos irmãos Marinho”, em notificação dirigida ao jornalista Fernando Brito, editor de O Tijolaço, declarar que “nem eles nem a Globo têm ligações ‘direta ou indiretamente’ com a mansão em Parati e com a empresa Agropecuária Veine”. Brito diz esperar que “o império Globo atenda ao apelo que fiz para identificar quem é, de fato, que se beneficia dos bens desta empresa”.
“Não apenas a mansão, mas o moderno helicóptero biturbinado Agusta 109, prefixo PT-SDA, que até dezembro era administrado por um consórcio entre a Agropecuária Veine, formalmente dona da mansão e a Santa Amélia, que tem como endereço um parque de máquinas da Brasif, como se mostrou aqui. Agora, segundo os registros da Anac, a aeronave é operada pela Vatnne RJ Administração e Participações, um empresa do mesmo Jonas Barcellos que diz que não recebeu nada de Fernando Henrique para pagar um bônus de US$ 3 mil dólares (cerca de R$ 12 mil, mensais, desde a década de 90 do século passado) a Mirian Dutra, mãe do ex-filho de Fernando Henrique Cardoso”, acrescenta o jornalista.
Fernando Brito acredita que “o colega jornalista João Roberto Marinho vai atender ao apelo" que lhe fez o blog, nesta sexta-feira, "e sugerir às suas empresas jornalísticas que apurem de quem é a Veine, por consequência logo quem é que se serve do aparelho. O helicóptero, por estar operado em serviço aéreo privado (arts. 123 e 177 do Código Aeronáutico Brasileiro) somente pode realizar vôos de transporte e lazer para os donos da sua operadora e recebeu da Prefeitura do Rio licença para usar – não se sabe se gratuita ou remuneradamente, já é uma primeira boa pauta – o heliponto da Lagoa para pousos comerciais e não comerciais”.
"Aliás, a Prefeitura poderia explicar como concede estas autorizações a particulares. É só pousar lá e pronto?”, questiona.
Mansão suspeita
A Polícia Federal, em nota distribuída na véspera, anunciou que pretende investigar uma possível ligação criminosa entre as Organizações Globo, a empresa Brasif e o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso. O inquérito se soma à participação de seus sócios no esquema de fraudes à Receita Federal, investigado na Operação Zelotes, e à fraude bilionária que resultou da evasão de divisas do país.
A mansão, em Paraty, foi alvo de uma reportagem do Diário do Centro do Mundo. Segundo o site de notícias apurou, “a mansão da família de Roberto Marinho, dona da TV Globo, tem documentos em nome da empresa Agropecuária Veine, que traz entre o quadro de sócios a Vaincre LLC: supostamente outro nome para a Murray Holdings LLC, a offshore dona de um apartamento tríplex no Guarujá e alvo da Operação Lava Jato. A informação é do blog de Helena Sthephanowitz”.
“Ao contrário das tentativas dos grandes veículos de tentarem associar o apartamento triplex no Guarujá, de propriedade da OAS e com a compra cancelada por Lula, e o sítio em Atibaia, que supostamente teve reformas pagas pela empreiteira, ao nome do ex-presidente como hipotético proprietário, a mansão de fato é da família Marinho. Mas estaria registrada, tecnicamente em nome da empresa que tem como sócio a offshore. Entretanto, não há inquéritos da equipe da Lava Jato para investigar o caso”, afirma o texto.
E continua: “Não é o único ponto em comum com as operações investigadas pela Lava Jato. Em junho de 2014 o ex-diretor da Petrobras, Paulo Roberto Costa, em depoimento à Lava Jato, afirmou que criou uma consultoria, em agosto de 2012, a Costa Global, após ter saído da Petrobras, que teria como missão fazer o "casamento" de investidores com donos de projetos. Entre eles, estaria a venda do terreno da família Marinho, onde está a mansão”.
O assunto foi ampliado na matéria da jornalista Helena Sthephanowitz, colunista da Rede Brasil Atual (RBA). O mesmo integrante da família Marinho, João Roberto, enviou à RBA texto semelhante àquele encaminhado ao editor de O Tijolaço, no qual pede retificação do texto original, publicado no dia 12 deste mês. O empresário João Roberto Marinho diz ser inverídica a informação de que a mansão em Paraty e as empresas citadas pertenceriam à família Marinho. A reportagem – publicada em 12 de fevereiro –, foi atualizada neste sábado, “sem prejuízo das demais informações”. Leia a íntegra, publicada no início desta tarde:
Mansão que Globo não noticia é alvo da Lava Jato no esquema Mossack Fonseca
A mansão de praia construída ilegalmente em área de preservação ambiental em Paraty foi noticiada pela Bloomberg em 2012 como sendo da família Marinho, dona da TV Globo. Não há registro na Bloomberg até hoje de desmentido, mas agora João Roberto Marinho afirma em nota enviada ao blog que não são os proprietários. Há notícias e relatos de que a família Marinho é quem utiliza a casa, mas João Roberto Marinho nada disse a esse respeito. O blog apurou que a mansão tem documentos em nome de uma empresa que em sua cadeia societária encontram-se offshores investigadas na Operação Lava Jato e na Operação Ararath, da Polícia Federal.
Segundo reportagem do Diário do Centro do Mundo, a mansão está em nome da empresa Agropecuária Veine, tendo como sócio-administrador Celso de Campos. A Secretaria de Patrimônio da União confirma a ocupação de três terrenos litorâneos da União por esta empresa na área onde está a mansão, o maior deles na certidão abaixo.
Nos dados abertos da Receita Federal, a Agropecuária Veine tem como endereço um apartamento residencial no Rio de Janeiro, em Copacabana, e tem no quadro de sócios outra empresa: a Vaincre LLC, domiciliada no exterior, cujo representante legal por procuração é Lucia Cortes Rosemburge, ex-funcionária do INSS, aposentada em 2008, salvo homônimo.
A Vaincre LLC tem CNPJ registrado, mas chama atenção o endereço incompleto no cadastro desde 2005, onde nem sequer informa a cidade, estado e país. Também não tem telefone nem e-mail de contato. E não tem informações sobre o quadro de sócios. Tudo isso dificulta entregar notificações judiciais, autuações administrativas ou operações de busca e apreensão, se necessárias.
Mas descobrimos que o endereço é de Las Vegas, no Estado de Nevada, nos Estados Unidos.
O endereço da Vaincre LLC – 520, S7TH Street, Suite C, Las Vegas, Nevada (EUA) – é exatamente o mesmo da Murray Holdings LLC, a empresa offshore dona de um apartamento tríplex no Guarujá, no edifício em que o ex-presidente Lula quis comprar apartamento e desistiu, levando a mídia tradicional a produzir a onda de boatos de que ele seria dono. Os reais proprietários do apartamento, que nada tem a ver com o ex-presidente, foram alvo da 22ª fase da Operação Lava Jato, chamada de Triplo-X.
Além das duas empresas terem o mesmo endereço em Las Vegas, têm o mesmo representante legal e o mesmo gestor. A Vaincre LLC da mansão em Paraty e Murray Holdinds LLC do Guarujá tem como representante legal a MF Corporate Service e tem como gestora a Camille Services SA, uma offshore no Panamá, cujo endereço é uma "P.O.box" (caixa postal) de número 0832-0886.
A Camille Services S/A tem entre seus dirigentes Francis Perez, Leticia Montoya e Katia Solano, nomes citados no escândalo de suposta lavagem de US$ 100 milhões do ex-presidente da Nicarágua Arnoldo Alemán (1997-2002) e da Fundação Voyager, sediada na Costa Rica.
A MF Corporate Service é uma empresa do Grupo Mossack Fonseca, investigado nos Estados Unidos por suspeita de lavagem de dinheiro e no Brasil, antes da Lava Jato, na Operação Ararath, cujas empresas envolvidos estão no quadro abaixo, com o mesmo endereço, mesmo representante legal e mesmo administrador usado no esquema da mansão.
Agora, não há como o Ministério Público Federal e a Polícia Federal deixarem de investigar o uso de offshores suspeitas em paraísos fiscais para adquirir esta mansão, no mesmo esquema usado nas operação Triplo-X e Ararath, com o agravante de estar edificada em terreno da União e de ter desmatado área bem maior do que a lei permite.
Será curioso assistir como o apresentador William Bonner noticiará uma operação da Polícia Federal na mansão em Paraty, já que a TV Globo até hoje não deu nenhuma notícia da mansão apesar do inegável interesse público em saber quem são os verdadeiros donos por trás das empresas nos paraísos fiscais.
Há uma justiça poética nesta história. O Jornal Nacional e a revista Época fizeram reportagens acusatórias e improcedentes, típicas de assassinato de reputação, alimentando-se de boatos de que o ex-presidente Lula estaria ocultando patrimônio. Isso ignorando documentos que já provavam serem completamente falsas tais acusações.
Agora, quem pode estar ocultando patrimônio de fato é alguém no caso da mansão. Afinal, por que montar uma complexa estrutura societária, com empresas aparentemente de fachada, passando por empresas em paraísos fiscais – que ocultam os verdadeiros donos?
No popular, podemos dizer que atiraram no ex-presidente Lula e acertaram, sem querer, nos donos da mansão que a TV Globo não noticia.
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