A globalização tirou milhões de pessoas da pobreza e teve muitos efeitos positivos, mas tem seu lado sombrio, e o livre comércio nem sempre significa crescimento econômico, disse na quarta-feira o diretor-geral da Organização Mundial do Comércio (OMC), Pascal Lamy.
Lamy afirmou, em Pequim, que a velocidade da globalização está afetando o nosso tecido social de uma forma muito mais dura do que em estágios anteriores da globalização. Foi o segundo alerta desse tipo em dois dias.
Na terça-feira, a Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento Econômicos (OCDE) divlgou comunicado que os governos precisam lidar com as preocupações com empregos e salários num mundo que está sendo rapidamente transformado pela tecnologia, o barateamento dos transportes e comunicações e a ascensão de enormes bolsões de mão-de-obra de baixo custo.
- Se a globalização beneficiou alguns indivíduos, também enfraqueceu a posição de muitos outros, em particular os mais fracos e mais pobres entre nós, seja nos países desenvolvidos ou em desenvolvimento - disse Lamy.
- Portanto, um dos desafios mais importantes da nossa geração é garantir que os benefícios da globalização sejam compartilhados de forma mais justa e ampla, e em particular que atinjam mais gente nos países em desenvolvimento - acrescentou.
As reuniões da OMC e de outros organismos multilaterais para discutir a redução das barreiras comerciais no mundo são, há anos, cenário de protestos de manifestantes para os quais a globalização e o livre comércio ajudam apenas os países ricos.
Lamy alertou que, se não houver avanços muito em breve, a chamada Rodada Doha do comércio global pode ficar parada. Ele suspendeu as negociações em julho passado, diante das discordâncias das principais potências comerciais sobre cortes em subsídios e tarifas agrícolas.
Representantes comerciais de União Européia (UE), Estados Unidos, Brasil e Índia estão reunidos nesta semana em Potsdam, perto de Berlim, para tentar resolver o impasse na Rodada Doha, lançada em 2001.
O diretor da OMC disse que os governos devem adotar políticas macroeconômicas seguras, construir a infra-estrutura correta e relaxar as restrições nos seus mercados para assim obter um comércio mais livre.
Segundo ele, terminar a Rodada Doha é crucial para aliviar a pobreza nos países em desenvolvimento.
- Concluí-la é compreensivelmente difícil, porque as políticas de comércio mudaram. A opinião pública se tornou mais ansiosa com os efeitos da globalização - afirmou Lamy.
Ele acrescentou que Brasil, China e Índia são um testemunho vivo de que abrir as economias pode aliviar a pobreza.