A mercantilização do mundo não poderia poupar o chamado "mercado editorial". Em artigo deste mês do Le Monde Diplomatique, o escritor francês Pierre Lepape afirma que, no momento em que se abre o Salão o Livro de Paris, as Edições du Seuil anunciam a compra da editora La Marnière, dando nascimento ao terceiro maior grupo editorial do país, em seguida à batalha entre a número dois, Hachette (do grupo Lagardière) e a número um, Editis (antigo grupo Vivendi Universal Publishing), para controlar 80% do mercado francês.
O Salão do Livro francês não se compara à Feira de Frankfurt, com seus 6.000 expositores, representando mais 115 países, que se tornou o encontro mundial do setor editorial, onde são apresentadas mais de 400 mil obras, das quais 100 mil lançamentos, anualmente. Mas essa fachada, diz Lepape, não deve levar a ilusões nem esconder um duplo movimento que afeta o mundo da leitura em escala mundial. Por um lado, a diminuição clara da edição nos países pobres, incluindo aqueles do ex-mundo soviético. Por outro, no interior do mercado editorial ocidental, os intercâmbios cada vez mais desiguais entre os EUA e a Grã-Bretanha - esta como satélite daquele -, e as outras nações.
Em Frankfurt, diz Lepape, os pavilhões dos países da Ásia, da África e da América Latina - embora representem a mais de 80% da população mundial - estão cada vez mais afastados do centro da Feira e cada ano menos visitados, com editores em quantidade cada vez menor e com decrescente quantidade de compra de direitos de seus livros. Enquanto isso, os editores franceses, alemães, italianos, espanhóis, gastam grande parte da sua energia no impossível desafio de vender seus livros para os Estados Unidos, mesmo se por uma soma simbólica ou chegar a convencer um editor inglês, o que é um primeiro passo para o mercado norte-americano.
Mas mesmo esse eldorado anglo-saxão é uma ilusão. Com uma produção literária anual que é o dobro da francesa (cerca de 14 mil títulos), a Grã-Bretanha só publica 3% de literatura de línguas não-inglesas. O mesmo acontece nos EUA, com 2,8% de traduções. Mesmo assim, vender um livro para uma casa editorial dos EUA não garante sua apresentação ao público, dada a hiperconcentração e as exigências de rentabilidade imediata que transformaram as condições de existência do livro, considerado um produto que demorou muito para se adaptar à gestão industrial e à rentabilidade financeira.
As grandes editoras exigem um crescimento anual de 10% e uma taxa de lucro de 15% - e os executivos são substituídos se não correspondem a elas. Do lado da distribuição, as grandes redes - nos EUA, particularmente a Barnes and Noble, a Borders e a Book-A-Million -, foram aos poucos eliminando as livrarias independentes com suas megastores e com sua rede de venda pela Internet. Elas impõem aos editores o que Lepape chama de "uma verdadeira ditadura comercial", recusando-se a comprar livros que lhes parecem de venda insuficiente, premiando os livros de sucessos com lugares privilegiados nas estantes e nas vitrines, devolvendo impiedosamente as obras cujo lançamento é demasiadamente lento ou a cobertura da mídia é insuficiente.
Praticamente não há mais lugar para as obras de venda lenta - afora algumas editoras universitárias e alternativas e uma pequena rede de 1.200 livrarias independentes, assim como para os livros estrangeiros, que além de tudo teriam que pagar os direitos de autor e a tradução e que não podem contar com custosas campanhas de promoção. Assim, praticamente nenhuma obra traduzida aparece nas listas de mais vendidos nos Estados Unidos há vários anos, o que igualmente acontece na Grã-Bretanha - em que se encontram as mesmas "celebridades", mais do que escritores.
Os países europeus são assim vítimas de um ataque das editoras anglo-saxãs. Não se trata de uma nova leva de literatura de boa qualidade, mas em geral de livros estereotipados, fundados nos cânones do mito americano - na expressão de L