Rio de Janeiro, 25 de Abril de 2026

Globalização e autoridade local

Por Marcio Pochmann - Um tema que preocupa cada vez mais os governantes é desvendar qual a real capacidade de transformação do local frente à avalanche da globalização. Essa é uma das pautas de um Fórum Mundial que acontece em Caracas. (Leia Mais)

Terça, 24 de Janeiro de 2006 às 18:16, por: CdB

Como ocorre desde a realização do primeiro Fórum Social Mundial, na cidade de Porto Alegre em 2001, o evento que congrega as autoridades locais tende a refletir mais do que avanços e dificuldades percebidas nas administrações progressistas nas mais distintas partes do mundo. Agora em Caracas, isso parece se repetir.

Mas há, entretanto, algo que vem preocupando cada vez mais as autoridades responsáveis pela administração do espaço local. Trata-se fundamentalmente do tema referente à real capacidade de transformação do local frente à avalanche da globalização, cuja principal força motriz se concentra no conjunto dos interesses agregados em torno das grandes empresas transnacionais (investimentos produtivos) e das altas finanças (investimentos em ativos financeiros).

Não parece haver dúvidas de que está em curso uma nova configuração do espaço geográfico no processo de acumulação de capital. Recorda-se que entre o segundo pós-guerra e o primeiro choque do petróleo, quando prevaleceu o sistema monetário-financeiro de Bretton Woods (1945 - 1973), as oportunidades do desenvolvimento local estavam diretamente associadas aos projetos nacionais de industrialização.

Com o padrão fordista de produção, houve o deslocamento estratégico no espaço geográfico de diversas empresas, considerado sempre as oportunidades rentáveis de investimento produtivo, a partir de garantias nacionais de mercado interno, de ampliação de infra-estrutura, de adestramento e custo da força de trabalho, entre outras. Ainda que a localização das empresas industriais tendesse a gerar concentração econômica, observava-se que a expansão de determinada região terminava por estimular a produção, emprego e renda nacionalmente, assim como o Estado nacional dispunha de medidas de políticas econômicas e sociais de promoção da desconcentração regional.

Em outras palavras, cabia ao Estado-nação a responsabilidade pela autonomia nacional e pela promoção da redução das heterogeneidades regionais.

Nas últimas três décadas, contudo, o esgotamento do sistema monetário-financeiro de Bretton Woods veio acompanhado de crescentes riscos à rentabilidade dos investimentos e às alternativas formas de valorização financeira, sobretudo pela via da desregulamentação dos mercados. A busca da flexibilização tornou tábua rasa a decisão privada, especialmente nas grandes empresas multinacionais, pois se tratou, cada vez mais, da socialização dos riscos da produção.

No caso da mão-de-obra, por exemplo, houve tanto a redução do emprego direto via a terceirização como a transformação do salário em custo variável (remuneração vinculada às metas de produção e vendas). Até mesmo a identificação de uma nova divisão internacional do trabalho passou a ser considerada tendo em vista o movimento maior de concentração dos investimentos diretos no exterior, a partir das empresas financeiras e não financeiras num grupo muito restrito de cidades ou regiões do mundo.

Frente a isso, o espaço geográfico ganhou outra roupagem. Surgiu, inclusive, o termo glocal, como resultado da combinação do movimento de globalização com a escala local.

Nessa toada, a temática nacional foi se perdendo em meio a difusão de tantas críticas neoliberais e neo-anarquistas à desfuncionalidade do Estado e às políticas de desenvolvimento regional. No seu lugar, ganhou maior ênfase o termo do Estado-região ou de cidade-global.

Ademais, as experiências mais recentes de redemocratização de vários países latino-americanos contribuíram para indicar que na dimensão local ocorreram inúmeros avanços em termos de maior participação popular e de uso mais adequado dos recursos públicos descentralizados. Como conseqüência, houve melhoras significativas na administração de bens e serviços e nos resultados sociais alcançados.

Tudo isso, no entanto, não pareceu ser suficiente para romper com a inércia da exclusão social e a lógica da localização dos investimentos privados or

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