As expectativas mundiais em relação aos governos de esquerda devem ser diminuídas. "O grande poder mundial está nos Estados Unidos e na Europa. Eles é que devem fazer a mea culpa (em relação à história de dominação) e não ficar cobrando do presidente Lula", desabafou o ministro da Cultura, Gilberto Gil, durante longa entrevista coletiva. Ele se encontra em Barcelona, onde participa do Fórum Universal das Culturas com dois status: como ministro, foi palestrante em duas das grandes conferências internacionais promovidas pelo evento, como músico, apresentou-se junto a sua banda, no palco principal, nas noites de sexta, dia 14, e ontem.
O desabafo do ministro teria origem nas indagações que teria ouvido de outros representantes latinos que com ele partilharam a mesa dos debates sobre globalização e memória coletiva, Rigoberta Manchú, ativista guatemalteca que recebeu o Prêmio Nobel da Paz, e Sonia Mora, reitora da Universidade da Costa Rica.
- Não dá para pensar em nova tomada da Bastilha ou que o presidente Lula vá fazer uma nova revolução", disse o ministro, bastante cético frente a opiniões quase sempre entusiasmadas sobre o governo Lula, apelidado pelos formadores de opinião europeus de "projeto de esquerda Lula da Silva.
Em matéria publicada na última semana, o El Pais, principal jornal espanhol, aponta que o governo Lula vem cumprindo, rigorosamente todos os compromissos com o Fundo Monetário Internacional (FMI) em detrimento dos esperados investimentos na área social, atuando exatamente como seu antecessor, o ex presidente Fernando Henrique Cardoso.
Para Gil, Lula, por mais que se esforce, não consegue ser melhor que Fernando Henrique. "Eu tinha razão quando já previa que um seria a continuação do outro", completou Gilberto Gil, questionando a insistência do apelo nacional e internacional por medidas mais radicais por parte do governo.
Avanços importantes para os países em desenvolvimento, de acordo com o ministro, só podem ser percebidos em conjunto com outros países e a partir de novas formas de governo. "Todo o sistema terá de falar em uníssono, queremos uma outra política" , afirmou, ressaltando que as primeiras iniciativas deverão partir dos países europeus e dos Estados Unidos."A problemática é nossa, mas a solucionática é do norte", disse.
Neste contexto, o ministro considerou a realização do Fórum Universal das Culturas uma iniciativa importante. Uma das propostas levantadas durante os diálogos promovidos pelo Fórum é de que 1/3 dos representantes da ONU sejam eleitos pelos governos. "Essa proposta remete à idéia de um governo mundial que possa lidar com problemas de todos os países", acrescentou Gil. A participação da sociedade civil na gestão desse novo governo também seria essencial. "O mundo está numa fase de reinstitucionalização e isso implica em processos internos", disse Gil, admitindo que o momento atual é doloroso e de um certo mal estar.
MPB em alta
A música brasileira foi, até agora, o maior destaque entre as atrações culturais do Fórum Universal das Culturas. No sábado à tarde, o músico baiano Carlinhos Brown conseguiu levar cerca de 400 mil pessoas para o Paseo de Gràcia, uma das principais avenidas da capital catalã, onde tal público só compareceu para protestar contra o atentado de 11 de março, em Madri.
Junto com 39 músicos, Brown apresentou seu Camarote Andante, um mega trio elétrico precedido por duas serpentes de seda gigantes, de 30 metros de largura, manipuladas por 30 figurantes.
Além dos espanhóis e da comunidade brasileira em Barcelona, o "Carnavalona", como foi batizado o espetáculo, reuniu turistas de todas as partes do mundo que começam a chegar a Barcelona para as férias de verão.
Os hits mais festejados foram "Já sei namorar" e "Rapunzel". O prefeito de Barcelona, Joan Clos, desfilou no alto do trio elétrico e admitiu que o "carnaval brasile