Rio de Janeiro, 03 de Novembro de 2026

General fala sobre Operação Condor: 'A gente não matava. Prendia e entregava'

O silêncio mantido por militares brasileiros, contrários à divulgação dos atos perpetrados contra a integridade física e psicológica de centenas de militantes de esquerda no continente latino-americano, foi quebrado neste domingo, com a entrevista do general-de-divisão Agnaldo Del Nero Augusto, atualmente na reserva. (Leia Mais)

Domingo, 30 de Dezembro de 2007 às 18:54, por: CdB

O silêncio mantido por militares brasileiros, contrários à divulgação dos atos perpetrados contra a integridade física e psicológica de centenas de militantes de esquerda no continente latino-americano, foi quebrado neste domingo, com a entrevista do general-de-divisão Agnaldo Del Nero Augusto, atualmente na reserva. Segundo afirmou, em entrevista ao diário paulista O Estado de São Paulo, o Exército brasileiro prendeu militantes montoneros e de outras organizações comunistas da região e os entregou aos militares argentinos.

- A gente não matava. Prendia e entregava. Não há crime nisso - pensa o general.

Oficial de Cavalaria e ex-integrante nos anos 70 da Seção de Informações do Estado-Maior do 2º Exército, em São Paulo, Del Nero serviu como adido no Paraguai em 1979 e 1980. Nos anos 80, tornou-se o chefe da Seção de Operações do Centro de Informações do Exército (CIE). O general contou ao jornal que, quando o Brasil recebia de um país amigo informações sobre um estrangeiro suspeito que ia entrar no País, o que se fazia era a sua detenção e o seu encaminhamento àquele país.

- Foi o que aconteceu com esses dois italianos - diz ele.

"Del Neto se refere ao caso dos ítalo-argentinos Horácio Domingos Campiglia e Lorenzo Ismael Viñas. Campiglia foi preso em companhia de Mônica Suzana Pinus de Binstock, no Rio, em março de 1980, no Aeroporto do Galeão. Havia desembarcado de um vôo que vinha da Venezuela. Viñas foi detido em Uruguaiana (RS), em junho de 1980. Eles eram militantes do Montoneros, grupo da esquerda peronista que defendia a luta armada na Argentina" escreve o repórter Marcelo Godoy.

Documentos mostram que os militares argentinos informaram os brasileiros sobre a chegada dos militantes ao Brasil e receberam autorização para executar a operação no país.

- Quando se recebia essa informação, podia ser que o cara estivesse só de passagem ou ele vinha também aqui se incorporar a alguma ação, e a gente não sabia. Então, a prisão dele tinha de ser feita, pois não se sabia o que esse cara pretendia. E como a gente não matava, entregava - contou o general Del Nero ao Estado de São Paulo.

Ele questionou o objetivo dos ítalo-argentinos, "membros da organização subversivo-comunista Montoneros, ao ingressarem ilegalmente no país".

- Que crime há em tê-los prendido? - pergunta o militar.

Campiglia e Vinãs planejavam regressar à Argentina e retomar a ação armada. Presos no Brasil, foram enviados à Argentina e desapareceram, o que levou a Justiça italiana a decretar na semana passada a prisão de 13 brasileiros acusados de envolvimento no caso.

Segundo o general Del Nero, a ação integrada dos Exércitos do Cone Sul, mais conhecida como Operação Condor, contra os grupos de esquerda era necessária, pois essas organizações se haviam unido menos de um ano depois do golpe que derrubou o presidente Salvador Allende, no Chile, com a fundação, em Paris, da Junta de Coordenação Revolucionária (JCR).

Participavam da junta o chileno Movimento de Esquerda Revolucionária (MIR, na sigla em espanhol), o argentino Exército Revolucionário do Povo (ERP), o uruguaio Movimento de Libertação Nacional (Tupamaros) e o boliviano Exército de Libertação Nacional (ELN). Segundo o general, o secretário da JCR era o cubano Fernando Luis Alvarez. Assim, a criação da junta levou os Exércitos da América do Sul a reagir.

- Mas a participação brasileira na Operação Condor se limitou a colaborar com informações, a treinar agentes estrangeiros e a monitorar subversivos - declara o militar ao jornal paulistano.

"Exemplo disso foi o pedido de busca 571/74, enviado pelo CIE a órgãos de segurança de todo o País. Nele, a inteligência do Exército pedia que procurassem informações sobre o soldado argentino Mario Antônio Eugênio Pettigiani. Militante do ERP, ele era acusado de participar do ataque em 1974 à Fábrica Militar de Pólvora, em Córdoba. Pettigiani desapareceu após

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