Geadas nas plantações de trigo da Argentina poderão aquecer os preços de pães, massas e farinhas vendidos no Brasil. Se as altas na cotação da commodity forem confirmadas, o aumento no preço do pão pode chegar a 10% nas padarias que ainda não promoveram reajustes neste semestre. A alta será o reflexo da nova suspensão temporária da emissão de registros de exportação do grão produzido pelos argentinos.
O governo do país vizinho, maior vendedor do trigo consumido no Brasil, suspendeu as exportações por cinco dias úteis para avaliar os danos causados pela geada que estão atingindo suas lavouras. O prazo para a análise começou a valer na quarta-feira, mas especialistas já estimam perdas de até 2 milhões de toneladas na safra argentina que será colhida em 2008.
As padarias brasileiras que já fizeram uma readequação de seus custos e aumentaram o quilo do pãozinho perto dos 6%, entre julho e este mês, também não agüentam mais segurar novas altas no preço da farinha de trigo. E os repasses deverão ser feitos na mesma proporção das novas altas da principal matéria-prima usada na panificação.
A saca de 50 quilos da farinha de trigo vendida para as padarias custava R$ 48, no começo do ano. Hoje, chega a custar R$ 75, alta de 56,25%. Porém, como o setor tem como meta aumentar o consumo de pães, os reajustes promovidos foram baixos. “Ficaram em cerca de 6%, afirma o presidente do Sindicato da Indústria da Panificação do Estado de Minas Gerais, Luiz Carlos Caio Xavier Carneiro. Ele garante que todos os empresários diminuíram suas margens de lucro. “Mas se houver mais aumento na farinha não vai dar para segurar”, comenta.
Na opinião do primeiro vice-presidente da Associação Brasileira da Indústria da Panificação e Confeitaria (Abip), José Batista, “os argentinos estão fazendo fumaça com relação ao trigo, e os moinhos estão bem estocados”. Por isso, ele também não acredita em fortes reajustes. “Se ocorrer, só depois de 90 dias”, afirma. Segundo ele, a Bolsa de Chicago já chegou a apresentar a cotação do trigo a US$ 320. “Pelo menos o câmbio está favorável para nós”, pondera. Mas ele confirma que se houver reajuste as padarias que estão com preços defasados não terão chance: “serão obrigadas a realinhar”. Nesses casos, ele acredita que os aumentos podem chegar perto dos 10%. “Serão proporcionais ao aumento do preço da farinha”, reforça.
O supervisor comercial das Panificadoras Morini, de Belo Horizonte, José Cláudio Bento, já registrou aumento de 25% em suas três últimas compras de farinha. “Não repassamos nada. Nosso limite de margem está no mínimo”, diz. Porém, se registrar novo aumento na próxima compra terá de promover aumentos. “Não vai dar para segurar mais”, afirma.
A indústria de massas, que já reajustou seus produtos em 25%, até este mês, também deve promover novos repasses de aumentos do preço da farinha. “Não temos espaço para novos reajustes, mas se a situação continuar como está, para o início do ano que vem é certo que teremos de aumentar preços”, afirma o presidente da Associação Brasileira das Indústrias de Massas Alimentícias (Abima), Cláudio Zanão. A farinha responde por cerca de 60% do custo final do macarrão.
Zanão observa que a cotação da tonelada do trigo no mercado internacional estava em US$ 170, no início do ano. Agora chegou aos US$ 300. “A culpa não é só dos argentinos. A produção mundial está se mantendo, mas entraram novos grandes consumidores, que são a Índia e a China. Os estoques caíram e os preços aumentaram”, explica. Apesar dos aumentos de preços, Zanão afirma que o consumo de massas no Brasil não caiu. Pelo contrário. Até agosto a alta já era de 7%. “Deve ficar nesta média, pois apesar dos reajustes o macarrão ainda é produto barato, de cesta básica”, justifica.