Rio de Janeiro, 14 de Setembro de 2026

Ganhou o crime

Por Mauro Santayana - O crime organizado obteve grande vitória com a decisão do Senado de arquivar a MP dos bingos. Sobrava razões para o contrário: apurações no Banestado já revelaram relações espúrias entre políticos, banqueiros e doleiros. (Leia Mais)

Segunda, 10 de Maio de 2004 às 15:50, por: CdB

O chamado crime organizado acaba de obter uma grande vitória sobre o Estado Nacional, mediante a cumplicidade da maioria do Senado, com o arquivamento da Medida Provisória que proibia os bingos e jogos eletrônicos em todo o País.

No projeto de destruição do Estado, que se iniciou com a eleição do Sr. Fernando Collor de Mello, a solerte revogação da lei que proibia os jogos de azar abriu caminho para a lavagem desabusada de dinheiro proveniente de outras atividades marginais, como o narcotráfico e o peculato. As investigações já realizadas sobre as operações cambiais irregulares do Banco do Estado do Paraná (Banestado) revelam essas relações espúrias entre políticos, banqueiros, doleiros que servem ao narcotráfico e ao contrabando. Acresce-se ainda que a atividade facilitou a entrada de máfias estrangeiras em nosso País, encarregadas de gerir grande parte desses estabelecimentos. A rejeição da Medida Provisória, por 32 votos a 31, mostra a que ponto chegou a crise moral.

Todos os argumentos podem ser usados, para justificar essa desoladora decisão - entre eles a ausência de senadores do PT, que poderiam defender a iniciativa presidencial -, mas, no fundo, trata-se de uma vitória dos bingueiros, cuja atividade pode ser considerada legal, depois da concessão do poder executivo, mas é, rigorosamente, imoral. A tolerância com os jogos de azar não altera a sua essência malévola. Os cidadãos têm todo o direito a imaginar o que quiserem sobre o que se encontra por detrás da decisão do Senado.

A oposição argumentou que não havia urgência que recomendasse a medida provisória. Dentro de uma lógica ética, essa urgência existe a cada momento em que um pai de família perde o seu salário, em que um filho rouba dos pais para os caça-níqueis, em que um aposentado aposta no bingo o dinheiro da aposentadoria e fica sem comer ou sem medicamentos. Há muitas formas de latrocínio, e o jogo, em certas circunstâncias, pode ser uma delas.

Lula foi extremamente lúcido ao dizer que o desemprego não justifica a legalização dos bingos. Se o raciocínio contrário fosse válido, teríamos que legalizar imediatamente o narcotráfico, que se tornou um dos principais empregadores deste País.

De duas uma: os que votaram contra a medida fizeram-no para demonstrar a força da oposição, ou votaram conscientemente a favor do jogo. Na primeira hipótese, cabe-lhes, agora, encontrar uma saída legal para fechar o jogo; na segunda hipótese, a cidadania deve anotar devidamente os seus nomes, e agir em conseqüência.

Escolhidos para torturar

As últimas informações divulgadas sobre a tortura de iraquianos por soldados norte-americanos agravaram ainda mais a situação do governo Bush. Muitos membros da equipe que torturava em Abu Ghraid procedem de Cumberland, trabalhavam como guardas presidiários, e pelo menos um dele já havia sido acusado de maus tratos contra prisioneiros sob sua custódia.

A mulher que aparece nas fotos, Lyndinee England, era esquartejadora de frangos em uma granja da região. Pessoas escolhidas a dedo para "ajudar" a CIA a obter as informações desejadas.

A propósito, o jornal Washington Post, que havia apoiado Bush desde o início da guerra, divulga nesta quinta-feira mais fotos horripilantes de Abu Ghraid.

Ao mesmo tempo, a Associated Press divulga a informação, procedente de Londres, que soldados norte-americanos colocaram arreios em uma velha senhora iraquiana, colocaram-na de quatro e a cavalgaram.

Enfim, viva a democracia norte-americana; viva a moral protestante do capitalismo.

Mauro Santayana, jornalista, é colaborador do Jornal da Tarde e do Correio Braziliense. Foi secretário de redação do Última Hora (1959), correspondente do Jornal do Brasil na Tchecoslováquia (1968 a 1970) e na Alemanha (1970 a 1973) e diretor da sucursal da Folha de S. Paulo em Minas Gerais (1978 a 1982). Publicou, entre outros, "Mar Negro" (2002).

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