Num discurso histérico e aparentemente improvisado na televisão estatal, o ditador da Líbia, Muammar Gaddafi, afirmou nesta terça-feira que não deixará o poder e prefere morrer como um mártir na terra de seus ancestrais. "Muammar Gaddafi é o líder de uma revolução; Muammar Gaddafi não tem um posto oficial ao qual possa renunciar. Ele é o líder eterno da revolução", disse o ditador de 68 anos. "Este é o meu país", afirmou, com o punho cerrado e erguido. O discurso foi feito na entrada de um prédio em ruínas, aparentemente a antiga residência do ditador em Trípoli, a qual foi bombardeada por jatos dos Estados Unidos nos anos 1980 e que foi propositalmente deixada em destroços como uma espécie de símbolo de desafio. Ele disse que continuará lutando e desafiou seus opositores, que qualificou de traidores da pátria e terroristas. "Ainda não fizemos uso da força, mas, se for necessário, faremos", disse, em tom de ameaça. Poder ameaçado O discurso ocorre num momento em que Gaddafi perde apoio entre diplomatas e a pressão internacional sobre o ditador aumenta. Diversos embaixadores líbios no exterior deixaram de apoiá-lo. Nesta terça-feira foi a vez do representante dos Estados Unidos virar as costas para Gaddafi. Há também relatos de deserções entre os militares. Em vários pontos do país unidades das Forças Armadas e das forças de segurança teriam passado para o lado dos opositores, afirmaram diplomatas de alto escalão à agência de notícias DPA. Oposicionistas disseram à agência de notícias ter praticamente toda a Líbia sob controle depois de uma semana de protestos e centenas de mortos. Várias cidades do leste do país, entre elas Benghazi, segunda maior cidade líbia e foco de origem dos protestos, estariam sob o controle dos rebeldes. Segundo a agência de notícias Reuters, também a fronteira da Líbia com o Egito está nas mãos de oposicionistas. Eles estariam armados com metralhadoras Kalashnikov. Em Benghazi, unidades inteiras do Exército desertaram e se uniram aos manifestantes, informa a organização francesa Federação Internacional de Direitos Humanos. Pelos cálculos dessa organização humanitária, ao menos 400 pessoas já morreram durante os protestos na Líbia. Segundo a Human Rights Watch, os confrontos em Trípoli deixaram ao menos 62 mortos. Pressão internacional O Conselho de Segurança das Nações Unidas se reúne em caráter de emergência nesta terça-feira para debater a situação no país árabe. A reunião foi convocada por Alemanha, França e Reino Unido. Já a comissária de Direitos Humanos das Nações Unidas, Navy Pillay, exigiu uma investigação internacional das brutais ações das forças de segurança líbias, que são acusadas por oposicionistas de abrir fogo contra os manifestantes, seguindo ordens do governo. Isso caracteriza crime contra a humanidade, afirmou Pillay. A secretária de Estados Hillary Clinton exigiu o fim imediato do "derramamento de sangue" na Líbia. O ministro alemão do Exterior, Guido Westerwelle, exigiu o fim da repressão: "Se a Líbia continuar a usar a violência contra o próprio povo, as sanções serão inevitáveis", disse o ministro. Na União Europeia, a Itália e Malta são contra sanções ao ditador por temerem um fluxo de refugiados caso Gaddafi seja deposto.
Gaddafi diz que não renuncia e desafia opositores
Terça, 22 de Fevereiro de 2011 às 09:10, por: CdB