Único dos quatro principais candidatos à prefeitura do Rio de Janeiro que não pertence à base política do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, Fernando Gabeira (PV) negou nesta quinta-feira ser o candidato anti-Lula nas eleições cariocas.
- Não tenho nada anti-Lula, não sou anti-ninguém. Se eu fosse escolher ser anti-alguém, eu não seria anti-Lula - disse Gabeira ao participar de caminhada em Bangu, zona oeste do Rio.
A ascendência de Gabeira nas últimas pesquisas de intenção de votos e sua coligação com o PSDB despertaram preocupações em setores do PT de que uma possível vitória sua daria palanque importante ao candidato tucano às eleições presidenciais de 2010.
- Tenho divergências com ele, nunca deixei de explicitar essas divergências. E tenho até dúvidas sobre quem Lula acha o melhor candidato para o Rio de Janeiro. Se perguntarem, acho que ele vai vacilar - acrescentou Gabeira.
Apesar das alianças com adversários do presidente, que podem crescer com adesão do DEM no segundo turno, Gabeira evitou a pecha de candidato anti-Lula no momento em que o presidente desfruta de popularidade de 80 por cento, segundo pesquisa CNI/Ibope divulgada na segunda-feira.
O candidato do PV disse também que, no Rio, não há intenção de nacionalizar a campanha municipal nem de transformá-la "numa polarização idêntica à de 2010". Gabeira está certo de que Lula não participará da disputa carioca, como tem feito em São Paulo.
Para Gabeira, o Rio está em situação difícil, e envolver a eleição municipal com a sucessão presidencial de 2010 dificultaria a resolução dos problemas da cidade, para os quais defende cooperação e construção comum.
- Acredito muito que o Lula compreende isso - afirmou.
- Ele não vai participar (da eleição). Eu sei quem ele é e ele sabe quem eu sou. Isso não tenho dúvidas. Então, dá para se entender - completou.
Calcanhar de Aquiles
Nesta quinta-feira, Gabeira investiu numa fatia do eleitorado vista como seu calcanhar de Aquiles: o público de menor renda, pouca instrução e morador de zonas periféricas da cidade.
Em manhã nublada e com chuva, o candidato fez corpo-a-corpo com eleitores no calçadão comercial de Bangu. Segundo ele, acusado por adversários de ser "o candidato da elite" e de circular apenas pela Zona Sul, essa foi a quarta vez que fez campanha no bairro. Gabeira disse que os eleitores de baixa renda hoje o reconhecem e estão aderindo à sua candidatura.
- É um tipo de pessoa que você diria, naturalmente, que não é meu eleitor, que não me conhece, e hoje já conhece e acena. Acho que mudou muito e para melhor - comentou.
As duas entradas do calçadão de Bangu estavam ocupadas por cabos eleitorais e carros de som de Eduardo Paes (PMDB), líder isolado nas últimas sondagens eleitorais, embora o candidato estivesse em outro bairro. Além do apoio do governador Sérgio Cabral, o peemedebista conta com o maior orçamento de todas as campanhas cariocas.
Com equipe reduzida, Gabeira chegou a Bangu com apenas um carro de som e um cabo eleitoral com alto-falante. Dos idosos que jogavam cartas e das pessoas que esperavam em fila da Caixa Econômica Federal, poucos se mostraram entusiasmados com a aparição do candidato.
- Ele entrou na favela cheio de segurança, porque tem medo. Vi isso na televisão. Não vou votar nele - afirmou a aposentada Léa Silva, 60 anos, moradora de Padre Miguel, na zona oeste, e eleitora de Eduardo Paes, que já visitou sua comunidade.
De acordo com o cientista político Cesar Romero Jacob, da PUC-Rio, Gabeira não tem a máquina partidária de Eduardo Paes para penetrar em áreas pobres da cidade com mais força. Entre outros aspectos dessas máquinas, estão as alianças com vereadores e líderes locais.
- Para ganhar eleição na cidade, o candidato precisa de discurso para a classe média escolarizada, na Barra da Tijuca, na zona sul e na Tijuca, e as máquinas nas áreas pobres, onde os serviços públicos não funcionam e prevalece o clientelismo - explicou o pesquisador.