A causa do blecaute ocorrido em vários estados das regiões Sudeste e Centro-Oeste na noite passada, permanece indefinida. Segundo informações da Hidrelétrica de Itaipu divulgadas no final da manhã, a hipótese mais provável é que tenha ocorrido algum acidente que afetou um ou mais pontos do sistema de transmissão, inclusive o de Furnas, responsável por levar a energia de Itaipu para o sul e sudeste.
Às 6h desta terça-feira, Itaipu voltou a operar normalmente, com 18 unidades (duas estão em manutenção, como ocorre normalmente), depois de ter a produção paralisada por uma pane no sistema elétrico interligado brasileiro, que afetou inclusive a geração para o Paraguai. De acordo com a empresa, nenhuma das máquinas desligou – elas ficaram operando no vazio, aguardando o restabelecimento do sistema. Com 20 unidades geradoras e 14 mil megawatts de potência instalada, a usina binacional fornece 19,3% da energia consumida no Brasil e abastece 87,3% do consumo paraguaio.
A pane ocorreu exatamente às 22h14 de terça-feira. Devido ao efeito dominó, também o sistema paraguaio teve o fornecimento de energia interrompido, sendo restabelecido em 15 minutos. Segundo a nota de Itaipu, logo a seguir, uma pequena carga começou a ser mandada para a Companhia Paranaense de Energia (Copel). A partir daí, as unidades foram progressivamente entrando no sistema elétrico brasileiro, até a geração ser normalizada.
O diretor-geral brasileiro de Itaipu, Jorge Samek e o diretor técnico executivo, Antonio Otélo Cardoso, participam, em Brasília, de uma reunião com autoridades do setor elétrico para analisar o problema.
Reflexos do apagão
As operações dos bancos continuam normais, apesar do apagão ocorrido na véspera, segundo informou a Federação Brasileira de Bancos (Febraban). De acordo com a entidade, qualquer anormalidade observada pelos clientes pode ser comunicada aos gerentes das agências e dos postos de atendimento bancário ou aos serviços de atendimento ao consumidor (SACs) das instituições financeiras.
Em São Paulo, a interrupção do fornecimento de energia elétrica afetou 5,8 milhões de consumidores na região abastecida pela empresa AES Eletropaulo, que engloba a capital paulista e mais 23 municípios do estado de São Paulo. Segundo a empresa – que é uma das 14 distribuidoras de energia do estado de São Paulo –, o serviço, interrompido às 22h15, foi restabelecido às 4h da madrugada na capital paulista.
O balanço sobre as demais áreas, que envolvem 13 distribuidoras, só deve ser divulgado pela secretária de Saneamento e Energia do Estado, Dilma Penna, em entrevista coletiva marcada para o início da tarde.
Ainda na capital paulista, 22 sinais de trânsito ainda estão sem funcionar depois do apagão. Segundo a Companhia de Engenharia de Tráfego (CET), a maioria deles afeta a circulação do trânsito na zona sul da cidade. No final da manhã, foram registrados 111 quilômetros de congestionamento na região do centro expandido. No início da tarde, a CET deve divulgar um balanço das ocorrências registradas durante o blecaute.
Possível causa
Problemas em três linhas de transmissão que recebem energia produzida pela usina hidrelétrica de Itaipu podem ter provocado o apagão que afetou dezenas de milhões de pessoas por mais de cinco horas em 18 Estados brasileiros, disse o secretário-executivo do Ministério de Minas e Energia, Márcio Zimmermann.
– Nossas avaliações iniciais mostram que houve uma condição meteorológica forte na região de Itaberá (SP), onde passam três circuitos de Itaipu que ligam as regiões Sul e Sudeste. Com isso, houve uma contingência tripla. O sistema é projetado para aguentar contingência dupla... não existe tecnicamente viabilidade técnica e econômica para proteção acima de contingência dupla, é inviável – disse o secretário aos jornalistas.
Com a saída da operação das linhas de transmissão, a usina hidrelétrica de Itaipu passou a "girar no vazio", sem possibilidade de transmitir energia, o que provocou o apagão.
– Ao ocorrer um processo como esse, o backup existente no sistema elétrico brasileiro não é suficiente para restabelecer de imediato toda essa energia produzida por Itaipu. Quando você tira no mesmo segundo 14 mil megawatts, aí causa esse problema que nós vivemos essa noite – disse o diretor da usina, Jorge Samek, em entrevista a uma rádio carioca.
O blecaute, concentrado nas regiões Sudeste e Centro-Oeste, levou o ministro de Minas e Energia, Edison Lobão, a convocar uma reunião do Comitê de Monitoramento do Sistema Elétrico para a tarde desta quarta-feira, na qual as causas do apagão devem ser discutidas.
O Paraguai, parceiro do Brasil em Itaipu, também sofreu os efeitos do blecaute, porém por um período bem mais reduzido. Itaipu anunciou a volta à normalidade no início da manhã desta quarta-feira, quando 18 das 20 unidades geradoras da usina voltaram a produzir energia para Brasil e Paraguai, e 10.450 megawatts passaram a ser transmitidos para os dois países.
"Indícios apontam para falha na transmissão entre o Paraná e São Paulo", informou a usina em sua página no serviço de microblogs Twitter.
Segundo a usina, das outras duas unidades geradoras uma estava em manutenção programada e a segunda em stand by.
Caos urbano
A falta de energia elétrica provocou problemas no trânsito e nos sistemas de transporte público de grandes cidades como Rio de Janeiro e São Paulo, e colocou em risco serviços hospitalares, que possuem capacidade limitada de operar com geradores. Na capital fluminense, taxistas chegaram a aconselhar passageiros que chegavam à cidade pelo aeroporto do Galeão a permanecerem no local por temores de que a falta de luz incentivasse arrastões nas ruas.
Em janeiro de 2005, o Rio de Janeiro já havia sofrido com um apagão provocado por um problema numa linha de transmissão de energia. Três anos antes, um problema parecido com o que aparentemente aconteceu na terça-feira provocou um apagão que afetou as regiões Sul, Sudeste e Centro-Oeste do país, principalmente as cidades de São Paulo e Rio de Janeiro.
O blecaute registrado em março de 1999, no entanto, foi o que teve proporções mais parecidas com o que aconteceu agora, afetando 10 Estados e o Distrito Federal.