A presença de mulheres no funk do Rio de Janeiro vai além da diva de Cidade de Deus, Tati Quebra-Barraco, que chamou a atenção da mídia londrina com suas músicas de letras apimentadas, falando de sexo e afirmação feminina. Nos últimos anos, deixar profissões de baixa remuneração para se aventurar como MC, ou Mestre de Cerimônia, no mundo dos bailes funk passou a ser uma alternativa econômica para várias mulheres jovens nas mais de 600 favelas do Rio.
Elas são frentistas, faxineiras ou mesmo estudantes que podem no mínimo triplicar seus rendimentos mensais, ganhar o respeito da comunidade e escrever uma história de auto-afirmação e melhores condições de vida.
- As mulheres entraram no funk carioca como dançarinas, mas recusaram-se a ficar ali como enfeite - diz a documentarista Denise Garcia, realizadora do filme Sou feia, mas tô na moda, exibido recentemente em Londres, que retrata a vida das funkeiras. O título usa a já imortalizada frase da MC Tati, ou Tatiana dos Santos Lourenço, e reflete uma nova atitude dessas jovens mulheres que, mesmo sem muitos recursos, passaram a ter um maior poder econômico.
- Hoje as mulheres se apanham. Botam moral, não abaixam a cabeça como antigamente. Elas não esperam mais (pelos homens). Muitas trabalham e criam seus filhos - diz a MC Valesca dos Santos, 26, vocalista do grupo Gaiola das Popozudas.
Enquanto o salário médio de uma empregada doméstica é de R$ 450, uma funkeira pode ganhar entre R$ 100 e R$ 500 por apresentação. Em vans com seus empresários, elas percorrem várias comunidades por noite, fazendo apresentações que duram cerca de meia hora cada uma. Os bailes podem acontecer em clubes que reúnem algo entre 1.000 e 10.000 pessoas, em quadras ou nas ruas das comunidades.
Cantando para a juventude abastada do Rio e de São Paulo, Tati é das que conseguiu turbinar seu cachê. No começo de maio, ela faturou R$ 5 mil para agradar mais de mil fãs e curiosos que foram à uma casa noturna na Vila Olímpia, bairro de classe média de São Paulo, para ouvir seus hits com letras explícitas de sexo ou de duplo sentido - como a que exalta as propriedades de uma marca de fogão, chamada Dako é Bom.
No Rio de Janeiro, os CDs de funk pornográfico são vendidos nos camelôs e na Rua Uruguaiana, no centro, junto com produções pirata de outros tipos de funk. Entre eles há o consciente, o romântico e o chamado proibidão, que exalta as facções criminosas.
- Se há um gênero musical que expresse todas as contradições do rio, esse é o funk - diz o jornalista Silvio Essinger, autor do recém-lançado Batidão (Ed.Record, 42 reais). O livro relata a história do movimento no Rio, resgatando um elo com o trabalho que o antropólogo Hermano Vianna fez sobre o tema no final da década anterior.
Desde aquela época, cerca de um milhão de jovens pobres do Rio têm os bailes como única diversão nos finais de semana, onde podem comprar um ingresso por R$ 2, dançar e divertir-se a noite inteira tomando um copo de cerveja.