Por força da lei em vigor no Estado do Flórida, dentro de três meses, um dos cinco maiores fundos de pensão dos Estados Unidos ameaça se desfazer de um bloco significativo de ações da Petrobras, caso a estatal brasileira continue fazendo negócios com o Irã.
Responsáveis pelo pagamento de aposentadorias a milhares de funcionários públicos do Estado da Flórida, esses fundos tinham o equivalente a US$ 113 milhões em papéis da Petrobras na sua carteira no fim de maio, dinheiro suficiente para colocá-los entre os maiores acionistas da empresa no mercado norte-americano.
Uma lei obriga os fundos administrados pelo Estado da Flórida a fazer a mesma coisa com qualquer empresa que tenha investimentos no Irã. Propostas semelhantes estão em discussão atualmente no Congresso e em uma dúzia de outros estados. Os EUA têm ampliado a pressão sobre as companhias estrangeiras que atuam no Irã por acreditar que sua permanência lá prejudica o esforço que a comunidade internacional tem feito para isolar o regime iraniano e conter a expansão das suas atividades nucleares. Empresas como a Royal Dutch Shell, a francesa Total e a italiana Eni também estão presentes no Irã.
A lei da Flórida é a única em vigor no momento. Ela dá aos fundos três meses para identificar em suas carteiras empresas que tenham investimentos no Irã e outros três meses para que os fundos tentem convencê-las a sair de lá. Se a pressão não funcionar, eles serão obrigados a vender as ações dessas empresas e terão um ano para fazer isso.
As consequências da perda desses acionistas tendem a ser pequenas para uma empresa do tamanho da Petrobras, que atualmente vale mais de US$ 110 bilhões no mercado. Se outros Estados imitarem a Flórida, o impacto financeiro da venda das ações poderá ser diluído num longo período de tempo.
Mas essas iniciativas podem criar complicações de outra natureza. Elas geram custos muito elevados para a reputação das empresas afetadas, diz Christopher Holton, vice-presidente do Centro para Política de Segurança, uma organização que tem trabalhado para promover leis como a que passou na Flórida.
A Petrobras tem um contrato de US$ 32 milhões com o governo do Irã para explorar um bloco no Golfo Pérsico. Os investimentos podem atingir US$ 78 milhões se algo promissor for encontrado. A estatal negocia com os iranianos um contrato maior para explorar dois blocos no Mar Cáspio, que pode levá-la a investir nos próximos anos mais US$ 470 milhões no país.
No início de junho, outro fundo norte-americano importante, o dos professores do Estado da Califórnia, enviou cartas de advertência à Petrobras e outras 12 companhias de petróleo, recomendando que avaliassem direito os riscos de continuar investindo no Irã. No fim do mês passado, esse fundo de pensão tinha o equivalente a US$ 170 milhões em ações da Petrobras.
A aprovação de uma medida como essa teria conseqüências sérias para a Petrobras nos EUA. Ela ficaria impedida de obter financiamento no mercado norte-americano e não poderia mais receber concessões do governo federal, como as áreas que explora no Golfo do México. Mas pessoas que acompanham essa discussão acham muito improvável que o Congresso vá tão longe.
O governo brasileiro tem manifestado indiferença diante dessas pressões. O presidente Luiz Inácio Lula da Silva discutiu o assunto em março com o presidente dos EUA, George Bush, e saiu da conversa avisando que a Petrobras continuará investindo no país.
No início deste ano, o embaixador norte-americano no Brasil, Clifford Sobel, procurou Gabrielli para manifestar sua preocupação com os investimentos da Petrobras no Irã e avisar que a subsidiária da empresa nos EUA poderia ter problemas por causa disso. Como Lula deixou claro depois na conversa com Bush, a pressão não deu em nada.