Poucos funcionários da ONU acreditam que haja casos de fraude ou de corrupção generalizada dentro da organização em que trabalham, mas alguns consideram fraca a resposta dada às suspeitas e temem ser repreendidos ao denunciar atuações incorretas.
Estas são as conclusões de um estudo realizado pela firma especializada Deloitte & Touche LLP, a pedido da própria organização, que aparece publicado no site da ONU.
A pesquisa, que foi dirigida aos mais de 18.000 empregados do organismo em Nova York e em outras cidades, tem especial interesse em ser destaca justamente porque a ONU atravessa uma crise de credibilidade associada a diversos escândalos.
Pouco mais de 6.000 empregados responderam o questionário, o que representa 33 por cento do total de trabalhadores, número considerado suficiente para considerar o trabalho representativo.
Quase a metade dos entrevistados responderam que os empregados desconfiam uns de outros, enquanto quase 46 por cento diz não se sentir livre de represálias se informar sobre casos de violações das normas de conduta da ONU.
Um total de 43,7 por cento respondeu que denunciar essas violações pode limitar suas carreiras dentro da organização e que quanto maior for a categoria de um empregado, menor é a probabilidade de que ele seja punido de forma justa e coerente caso cometa um erro.
Ao mesmo tempo, a sondagem reflete dúvidas sobre os mecanismos existentes para informar sobre as violações das normas éticas.
"O pessoal acha que os processos disciplinares se aplicam de modo irregular e que, em geral, não se conhece o resultado", reconheceu o secretário-geral da ONU, Kofi Annan, em carta aos trabalhadors, na qual explica algumas das conclusões e as medidas que serão tomadas.
Os empregados também percebem "que não se têm suficientemente em conta a integridade e o comportamento ético nos processos de seleção, promoção e avaliação" do pessoal, escreve Annan.
O secretário-geral acrescenta que serão tomadas medidas para reforçar a proteção daqueles que informam sobre condutas inadequadas e, ao mesmo tempo, assegurar que não haja "acusações falsas".
Um aspecto positivo da pesquisa é que uma maioria dos empregados (70 por cento) está satisfeita com seu trabalho atual e uma porcentagem superior (mais de 80 por cento) diz que, em geral, gosta do trabalho que faz.
No entanto, mais da metade acha que os méritos e o resultado de seu trabalho não são os fatores principais para ter uma carreira bem-sucedida na ONU.
O secretário-geral lembra que o estudo foi solicitado no contexto dos esforços para lutar contra a fraude e a corrupção no mundo, e dentro do processo de reforma da organização.
Além disso, informa que criará um grupo para dar seguimento aos problemas apresentados pela enquete.
O escritório do porta-voz anunciou há algumas dias a existência do estudo, quando a organização estava imersa em plena negociação para adotar a última resolução sobre o Iraque, e tinha passado totalmente despercebido até agora.
Os resultados têm especial relevância porque a organização tem várias investigações abertas, especialmente a relacionada às suspeitas de corrupção no programa humanitário para o Iraque, Petróleo por Alimentos, do qual se encarrega uma comissão independente.