Rio de Janeiro, 14 de Janeiro de 2026

A fraqueza da carne, da economia e da política brasileira está escancarada

Por Sergio Nogueira Lopes - Para os EUA, um dos principais concorrentes do Brasil, no mundo, apenas no ano passado o país conseguiu aprovar e embarcar carne in natura, após cumprir todas as exigências legais

Terça, 21 de Março de 2017 às 09:12, por: CdB

Há quase um ano, o país enfrenta uma depressão econômica, lato sensu. Caem, um após o outro, setor após setor, diante da ausência de segurança jurídica, na vala comum da falta de confiança no futuro

 

Por Sergio Nogueira Lopes - do Rio de Janeiro

 

Ainda segue viva até na memória dos peixinhos dourados a lembrança das ruas manchadas de verde e amarelo, ao som das panelas e os grasnidos patrocinados por entidades de classe. A Operação Lava Jato estava, como até agora, com mais convicções do que provas sobre o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Mas dispunha de ódio suficiente para alimentar o estômago da besta que, ao seu tempo, rasgou o fino tecido da Democracia, em um golpe de Estado.

nogueira-lopes.jpgé articulista do
Sergio Nogueira Lopes Correio do Brasil

Rompida a normalidade democrática, há quase um ano, o país enfrenta uma depressão econômica, lato sensu. Caem, um após o outro, setor após setor, diante da ausência de segurança jurídica, na vala comum da falta de confiança no futuro. E, o mais grave, no descrédito quanto ao sistema político brasileiro. Não há saída visível para o drama social que se abateu sobre o país, a não ser a convocação de eleições amplas, gerais e irrestritas. Aquele Brasil que fulgurava na capa das revistas internacionais, em plena decolagem, hoje não passa de escombros.

Ataque em massa

Diante de um movimento em pinças, de um lado se concretizou a derrocada das maiores construtoras do país. Seus principais executivos foram flagrados no atalho da corrupção, após deixar de lado as práticas corporativas e entediantes do ditames legais. Com eles, foram encarcerados a credibilidade, a seriedade do empresariado brasileiro e milhões de empregos na Indústria da Construção Civil. Um recente leilão, em que aeroportos brasileiros foram privatizados, não contou com um participante brasileiro sequer. Foram vendidos para alemães, suíços, franceses e norte-americanos.

Na outra mão, a saga de se passar o Brasil a limpo segue ainda mais sôfrega, esbaforida em manchetes sensacionalistas. A ânsia de livrar a sociedade brasileira do mal da corrupção, dos maus políticos e dos empresários corruptores ganhou um novo capítulo. Descobriram, após dois anos de investigações, que alguns irresponsáveis fazem linguiça com carne de cabeça de porco, entre outras nojices. A dimensão que o fato tomou, no entanto, é equivalente ao efeito de uma guerra química, em que milhares de pessoas estivessem contaminadas, após um ataque em massa aos frigoríficos nacionais.

O efeito foi o mesmo que jogar um balde de água fria em um cão escaldado. Pânico. Terror. Em questão de horas, da União Europeia à Malásia, os embaixadores, praticamente, se aprontam para suspender a importação da carne brasileira. A China e Hong Kong paralisaram, nos portos, o desembarque de carregamentos da carne brasileira. Os produtos de origem bovina, suína e de frango rendem US$ 12 bilhões por ano ao país. O prejuízo, até agora, já beira as centenas de milhões de reais. Irresponsabilidade custa caro.

Jogo pesado

Foi uma tarefa memorável a abertura dos negócios para a Europa. As exportações começaram há 17 anos para o Velho Continente. Mas, para os EUA, um dos principais concorrentes do Brasil, no mundo, apenas no ano passado o país conseguiu aprovar e embarcar carne in natura, após cumprir todas as exigências legais. Nesse campo, não há espaço para os fracos. O jogo é pesado e todos os participantes conhecem as regras. Errou, está fora.

No Oriente Médio, para se ter uma ideia, os frigoríficos brasileiros tiveram que desenvolver toda uma metodologia de abate para atender às orientações do Corão e da Torá, respeitando as tradições religiosas de cada país. Estes métodos foram trabalhados, por anos a fio, junto a uma cadeia de pequenos produtores. A maioria deles, centrada nos Estados da Região Sul. Trata-se da região do país que mais apoia, vota e elege políticos da extrema direita. A maioria de seus parlamentares votou pela ruptura democrática, em Maio do ano passado.

Esses mesmos deputados e senadores sulistas tiveram suas campanhas abastecidas com recursos destas companhias do agronegócio. Vários deles estão citados nas investigações, inclusive o ocupante do Ministério das Justiça, uma das mais importantes pastas da República, deputado Osmar Serraglio (PMDB-PR). É preciso apurar quantos quilos de carne podre são suficientes para a eleição de um político corrupto.

Terra sem lei

A tentativa de quebrar outro setor da economia brasileira, por parte de alguns empresários inconsequentes e da repercussão que a Polícia Federal promoveu, neste caso, foi cumprida em questão horas. Sem, claro, esquecer o auxílio eficaz dos meios de comunicação ligados ao capital internacional. A notícia, com eles, espalha-se com o mínimo de seriedade e o máximo de sensacionalismo. A história de papelão misturado à carne é o exemplo clássico da falta de noção do jornalismo aflito.

Faltou sangue frio, no mínimo, aos editores, para questionar a interpretação da escandalosa PF, sobre o diálogo do suspeito. O sujeito, flagrado na escuta policial, falava da embalagem de uma carne vencida, e não do acréscimo de celulose à massa esverdeada. Ainda que uma coisa não diminua a gravidade da outra, ajudou que a história se espalhasse feito rastilho de pólvora, nos comentários de mau gosto que invadiram as redes sociais.

A corrupção na fiscalização sanitária brasileira, endêmica como qualquer outra, sofreu um ataque frontal, não resta dúvida. Mas, transformada em um espetáculo lamentável, serve apenas aos interesses mais sombrios. A exemplo das consequências da Lava Jato e agora, da Carne Fraca, se todas as medidas adotadas contra alguns criminosos tiverem tamanha intensidade, dentro em breve não haverá um país.

Restará apenas aquela terra bravia e indômita que os estrangeiros adoram desbravar. De novo.

Sergio Nogueira Lopes é sociólogo, escritor e embaixador da SPB-Brasil.
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