Enquanto a Grã-Bretanha honra seus heróis de guerra e a Alemanha prepara-se para enfrentar novamente seus fantasmas nazistas, o clima na França, que sediará no domingo as celebrações pelos 60 anos do Dia D, é mais ambíguo.
Há um claro sentimento de gratidão para com os soldados dos Estados Unidos, da Grã-Bretanha e de outros países aliados que deram suas vidas na invasão das praias da Normandia no dia 6 de junho de 1944, ajudando a libertar o território francês das tropas nazistas e acelerando o fim da Segunda Guerra Mundial (1939-45).
Por outro lado, porém, há dor ao lembrar o período em que a França perdeu o controle sobre seu próprio destino, colaborou com as forças de ocupação nazistas e acabou assistindo a um grande número de mortes entre civis ao se transformar num dos mais sangrentos campos de batalha da Europa.
"Milhares de civis morreram e algumas cidades foram quase totalmente destruídas pelas bombas dos Aliados", afirmou Jacques-Adrien Perret, que era um adolescente na época. Perret publicou suas memórias sobre como os moradores da França viram aqueles eventos.
"É uma época complexa e difícil da história para os franceses. Mas acho que eles aceitam que o Dia D e a batalha da Normandia tenham sido o preço a ser pago para colocar fim à ocupação", disse.
Cerca de 17 chefes de Estado e de governo, entre os quais o presidente dos EUA, George W. Bush, participarão das celebrações a serem realizadas no domingo e que atrairão, segundo se prevê, milhões de visitantes para as praias da Normandia. Ali, no que ficou conhecido como o Dia D, mais de 132 mil soldados aliados desembarcaram para começar a expulsão nazista do território francês.
Pela primeira vez a Alemanha enviará seu líder para participar das cerimônias, no que o chanceler Gerhard Schroeder disse que era uma prova de que o período do pós-guerra estava "terminado para sempre". Já a Grã-Bretanha pretende celebrar uma de suas maiores histórias de sucesso enquanto ainda há veteranos presentes.
A França, no entanto, tem pouco em que se concentrar. Durante anos o país empurrou para debaixo do tapete as lembranças da ocupação e valorizou o papel da Resistência antinazista. Mas em 1995 o presidente Jacques Chirac reconheceu o papel do governo colaboracionista de Vichy no Holocausto e se transformou no primeiro líder francês a pedir desculpas ao povo judeu.
Essa ambivalência está presente na série de jornais franceses, documentários e livros sobre o Dia D, a maior parte tratando aspectos mais sombrios da época.
A revista Paris Match devotou 12 páginas de sua edição atual para estampar imagens da destruição do porto de Caen e de outras cidades pelas 40 mil toneladas de bombas aliadas que acompanharam o desembarque das tropas aliadas.
"Eles esperavam uma hora de alegria. Mas foram mergulhados no inferno", dizia sobre a situação dos civis franceses em meio a uma batalha que deixou 20 mil mortos e milhares de desabrigados.
Há várias fotografias de famílias francesas recebendo as forças de liberação com os braços abertos. Mas as memórias também falam sobre os abusos cometidos por soldados aliados, enquanto eles expulsavam as tropas alemãs e tomavam controle das cidades francesas.
O historiador Jean-Pierre Azema disse que havia provas de quase 500 estupros de mulheres da Normandia cometidos por soldados norte-americanos. Também havia sentimentos mistos na França sobre alguns convidados do presidente Chirac para o evento.
"Muita gente da minha idade na Normandia está questionando se é o evento certo para convidar Schroeder, dado que nós enfrentamos um inimigo alemão impiedoso", disse Perret.
"Seria melhor tê-lo convidado para o aniversário do fim da guerra (em 8 de maio)".