No dia 21 de junho de 1905 nascia o filho do casal francês Jean-Baptiste Sartre e Ann-Marie Schweitzer, o contraditório filósofo, que introduziu o existencialismo na França, Jean-Paul Sartre. O centenário do nascimento de um dos homens mais importantes do pós-guerra no campo intelectual não chegou a ganhar nenhum selo comemorativo este ano, mas faz parte das "celebrações nacionais" oficiais da França de 2005, assim como os 100 anos de seus amigos Nizan e Raymond Aron, o bicentenário de Tocqueville e os 100 anos da morte de Júlio Verne.
Desde desde o início do ano vem acontecendo vários eventos e muitas obras vem sendo publicadas para homenagear o autor de <i>O ser e o nada</i>, sua obra-prima. A Biblioteca Nacional francesa abrigará até o dia 21 de agosto uma grande exposição, dirigida por Mauricette Berne. Michel Sicard, que colabora com Berne na exposição, lançou ainda o catálogo <i>Sartre et son temps</i> (Sartre e seu tempo) e o DVD <i>Sartre inédit</i> (Sartre inédito).
A mostra sobre o filósofo e escritor, autor de <i>Crítica da razão dialética</i> (1960), terá também duas semanas de várias palestras internacionais, organizados na França e em outros países, para divulgar a obra de Sartre e suas contradições e conflitos.
Esses eventos têm como objetivo ainda descobrir a contribuição histórica de Sartre e "estabelecer quais são as perspectivas que sua obra oferece para compreendermos melhor nossa pós-modernidade".
Assim, Michel Rybalka e Michel Sicard reunirão de 20 a 30 de julho cerca de 30 especialistas para estudar o "'vigilante noturno presente em todas as frentes da inteligência' (como o chamou Audiberti)": Filosofia, romance, teatro, crônica jornalística, ensaio, biografia e ativismo político.
Os dois estudiosos partirão do princípio de que esse homem "dedicado à escrita desde a infância, ideologicamente criador," é o "exemplo único de um homem que construiu ao mesmo tempo uma grande obra literária e uma grande obra filosófica a partir de sua existência pessoal e sob o signo da liberdade".
Entre os conferentes, Ronald Aronson falará do conflito não resolvido com Camus; Maurice Berne sobre a busca de seus manuscritos; Jean Bourgault sobre "as neuroses em ´O idiota da família´"; e Michel Contat sobre as "múltiplas identidades" do autor.
Outros especialistas abordarão suas ligações com Pirandello, suas complicadas e polêmicas relações com o Partido Comunista nos anos 50, com o maoísmo francês nos anos 60 e, sem dúvida, com a ocupação nazista na França, tão criticada por vários estudiosos, como Carlos Semprún Maura.
A visão que Sartre tinha de vários assuntos (o teatro, a morte, o corpo, o feminino, a música, a verdade e a história) e as "degenerações" deste autor que definia a si mesmo como "polígamo" serão alvo de outras intervenções para se compreender melhor sua complexa trajetória pessoal, literária e filosófica.
O papel de seu avô materno, Charles Schweitzer, ganha detaque no centenário do nascimento de Sartre. O próprio autor de <i>A náusea</i> (1938) já se perguntou se não teria "escrito todos esses livros que ninguém queria com a única e louca esperança de agradar" seu avô.
Charles Schweitzer, representante da burguesia protestante alsaciana e tio de Albert Schweitzer - Prêmio Nobel da Paz em 1952 - teve papel importante na educação do menino Sartre, que ficou órfão de pai.
O centenário também destaca longa amizade entre Sartre e outros grandes intelectuais de seu tempo, como Paul Nizan, que o filósofo conheceu no Liceu Henrique IV de Paris, e seu relacionamento afetivo-literário com Simone de Beauvoir, que encontrou pela primeira vez em 1924, aos 19 anos, na Escola Normal Superior de Paris.
O nascimento de Sartre coincidiu com um ano de grandes acontecimentos políticos que marcaram o século XX: 1905 é o ano da primeira revo