Rio de Janeiro, 23 de Outubro de 2026

Fracasso de Doha leva o Brasil a buscar novos caminhos

Quarta, 30 de Julho de 2008 às 08:43, por: CdB

Representante comercial dos Estados Unidos, Susan Schwab manteve, nesta quarta-feira, as ofertas feitas nas negociações da Rodada Doha, que terminaram na terça-feira com um fracasso histórico, após nove dias de discussões em Genebra, diante do impasse gerado pela questão agrícola entre as principais potências comerciais.

- Se os outros estiverem prontos para seguir adiante e responder a nossos oferecimentos de forma significativa, aqui estamos - disse.

As negociações entraram em colapso definitivo, no final da tarde desta terça-feira, depois que EUA, Índia e China não conseguiram chegar a um acordo sobre tarifas de importação para o setor de alimentos. Sem um acordo final, a União Européia (UE) não terá de oferecer maior abertura para seus mercados agrícolas para a produção dos países emergentes e estes, por sua vez, não terão de abrir seus mercados de produtos industriais e de serviços para as empresas dos países ricos.

Ritmo de expansão

A ausência de um novo acordo global para comércio tende a reduzir o ritmo de expansão das exportações brasileiras em alguns setores e poderá levar o país a buscar acordos regionais ou bilaterais para aliviar o estrago provocado na OMC, onde o Brasil apostou alto. Dirigentes de associações industriais e rurais, assim como especialistas em comércio, não vêem o colapso das negociações da Rodada de Doha como um desastre total, mas acreditam que um acordo poderia acelerar ganhos do país em algumas áreas que se mostram carentes no mundo, como alimentos e energia.

- Se o Brasil tivesse obtido um resultado como estava mais ou menos se delineando, já teria uma promessa concreta, traduzida em acordos, de uma expansão de mercado daqui alguns anos. Agora não vai ter nada. Mercados por exemplo como o do etanol e agrícolas em geral, a diminuição de subsídios na Europa e Estados Unidos, não vai haver nada disso. Vamos ficar esperando uma outra tentativa - afirmou a jornalistas Rubens Ricupero, ex-diretor geral da Conferência das Nações Unidas para Comércio e Desenvolvimento (Unctad).

Pedro Camargo Neto, presidente da associação que reúne exportadores de carne suína, afirmou que agora o Brasil deve olhar para outras formas de expandir exportações.

- Você não ganha os aumentos que iriam ocorrer agora, mas a vida continua. O que o Brasil cresceu de exportador agrícola nos últimos 15 anos não teve nada a ver com a Rodada do Uruguai, por exemplo, mas sim com o aumento de produtividade, reforma estrutural. Vai continuar nessa linha - disse Camargo.

Mercosul

Vice-presidente da Associação de Comércio Exterior do Brasil (AEB), José Augusto de Castro comentou que o país permaneceu relativamente isolado durante os sete anos das negociações de Doha, ao contrário de outros emergentes como México e Chile, que fecharam acordos em outras esferas. Ele acredita que o país, de agora em diante, deve correr atrás do tempo perdido.

- Os acordos bilaterais têm que ser a saída para o Brasil agora. O problema é que um entendimento tem que ser aceito por todos os parceiros do Mercosul e o Brasil é uma economia muito maior do que os demais sócios. Os interesses são diferentes - disse Castro.

Concorda com ele Humberto Barbato, presidente da Associação Brasileira da Indústria Elétrica e Eletrônica (Abinee):

- O caminho daqui para a frente é um caminho interessante porque vamos ter de trabalhar violentamente para acordos bilaterais de comércio.

Algumas negociações paralelas à da Rodada de Doha, como a própria Área de Livre Comércio das Américas (Alca), foram deixadas de lado nos últimos anos em favor de um consenso mais amplo no ambiente multilateral da OMC. Mas há quem coloque dúvidas sobre a eficácia de acordos regionais quando se trata de temas mais complexos, como os que travaram o avanço das negociações em Genebra.

- Eu não acredito que não se chegue a um acordo (na Rodada de Doha), seja lá qual for, quando for. Porque nas discussões bilaterais (fora da OMC) não há avanço em temas como subsídios à exportação, acesso a mercado e apoio doméstico que distorce o comércio. Por isso, esses acordos são muito mais políticos, eles geram pouco fluxo de comércio - afirmou a jornalistas a consultora em comércio internacional Elisabete Seródio.

Já o diretor-geral da Associação Nacional dos Exportadores de Cereais, Sérgio Mendes, vê até um aspecto positivo no fato de o acordo não ter sido fechado agora. Segundo ele, isso dará mais tempo para o país se preparar estruturalmente para um crescimento nos volumes de exportações, principalmente na área agrícola.

- Temos que nos preocupar é com ampliar a produção para atender essa demanda adicional, coisa que hoje não vejo o Brasil preparado em termos de infra-estrutura de transporte e mesmo em expansão de plantio - afirmou.

Para o ministro brasileiro das Relações Exteriores, Celso Amorim, o prazo para se voltar à mesa de negociações deverá girar em torno de três a quatro anos.

Arbitragem

Após o fracasso de Doha, a Organização Mundial do Comércio (OMC) deverá se dedicar mais à arbitragem de disputas. Os ministros que participaram dos nove dias de reunião deixaram Genebra reafirmando seu compromisso com o sistema comercial multilateral sob a égide da OMC. Mas muitos admitiram que por enquanto será mais fácil buscar acordos regionais ou bilaterais.

- A OMC não se torna menos relevante ou importante porque a Rodada Doha cai. A Rodada Doha não é a OMC - disse à agência inglesa de notícias Reuters David Hartridge, consultor do escritório global de advocacia White and Case.

Além de promover a liberalização comercial, a OMC também ajuda a resolver disputas comerciais, ao colaborar para que governos a se ajustarem às tensões comerciais dentro de um marco jurídico aceito por todos, disse Hartridge, ex-diretor-geral-interino da OMC. Como exemplo da capacidade da OMC para evitar que conflitos degenerem em sanções e retaliações, ele citou a antiga disputa entre EUA e União Européia por causa dos aviões da Boeing e da Airbus.

- O que poderia ser um conflito muito nocivo entre duas grandes potências comerciais (ficou) dentro dos limites da lei e do bom senso - disse ele.

Segundo o comissário europeu de Comércio, ministro Peter Mandelson, todos perderam com o fracasso das negociações

- Este é um revés significativo para todo o sistema comercial internacional. Todos seríamos os ganhadores de um acordo de Doha. Sem ele, todos perdemos - disse.

Para o presidente da OMC, Pascal Lamy, a abertura oferecida pelo processo teria fortalecido a política global contra o protecionismo.

- Minha esperança é de que, devido à elasticidade do sistema, ele possa resistir à estrada esburacada que temos pela frente - concluiu.

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