Rio de Janeiro, 28 de Outubro de 2026

Fotos de índios podem causar mortes na Amazônia

Terça, 10 de Junho de 2008 às 05:02, por: CdB

O jornal britânico The Guardian traz em sua edição desta terça-feira um artigo de opinião alertando para o perigo do interesse público gerado pela divulgação, há duas semanas, de fotos de uma tribo de índios isolada na Amazônia.

Segundo o artigo Morte na Amazônia, assinado pela escritora britânica Jay Griffiths, as imagens dos índios pintados de vermelho e preto empunhando arcos e flechas em direção aos invasores, em expressão de raiva e medo, transmitiam a mensagem clara de que “querem ser deixados em paz”.

– Houve um grande interesse por parte do público quando as fotos foram divulgadas pelo governo brasileiro, revelando a curiosidade que despertam as tribos indígenas – diz a autora, que já esteve em contato com tribos isoladas na selva peruana a convite de ativistas indígenas e escreveu o livro Wild: An Elemental Journey.

– Mas enquanto muitos defensores dos índios querem divulgar seus alertas para a destruição da natureza e suas filosofias de vida, eles próprios, os índios, não querem nada disso. Eles não têm nada a ver com a cultura dominante e tudo que querem é ser deixados em paz – afirma a escritora.

Missões e TV

Griffiths acredita que com a divulgação das imagens esses índios serão perseguidos não apenas pelos grupos ilegais que desmatam a florestas, mas também por “missionários religiosos, empresas de televisão e aventureiros determinados a ignorar sua mensagem”.

– Os riscos são bem conhecidos: milhares de índios isolados já morreram depois de contraírem doenças trazidas pelos invasores – disse.

Griffiths afirma que no início do ano uma equipe de TV britânica esteve na selva amazônica peruana para procurar índios para participar de um reality show.

– A equipe foi acusada de visitar uma tribo isolada e transmitir doenças que deixaram quatro mortos – disse.

Na opinião da autora, há um “profundo racismo contra as comunidades indígenas e a invasão forçada é a prova disso”.

– O mercado editorial promove o aventureiro, as igrejas fundam missões, as corporações enviam mineradores e destruidores da floresta e as companhias de TV enviam suas equipes. Num mundo honesto, todos deveriam ser acusados por tentativa de assassinato – afirmou.

Informação salvadora

Uma crônica publicada nesta terça-feira no jornal Le Monde, no entanto, vê com bons olhos a liberação das fotos. O autor, Laurent Greilsamer, acredita que a Funai já sabia da existência da tribo há muitos anos e questiona a divulgação do fato domo “descoberta”.

– Esta tribo não é desconhecida – afirma o autor.

– Já faz 20 anos que a Funai decidiu protegê-la, rompendo o diálogo e deixando-a em paz – completou.
 
– A decisão de revelar a existência da tribo foi para atrair a atenção da comunidade global para essa micro-sociedade ameaçada por empresas petroleiras e que adorariam penetrar tranqüilamente pelos confins do Peru ou do Brasil – disse.
 
– Até agora o silêncio foi protetor; a informação pode se tornar salvadora – afirmou Greilsamer.

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