Rio de Janeiro, 12 de Setembro de 2026

Fórum Social Mundial requer um balanço

Por Emir Sader - A construção de "Um outro mundo possível" se choca com o clima de guerra imposto pela política estadunidense, que promete se prolongar por longo tempo. Nenhum avanço, em nenhuma área essencial, será possível sem quebrar a espinha dorsal dessa política.

Sexta, 21 de Janeiro de 2005 às 09:36, por: CdB

Há quase cinco anos, quando começamos a pensar na organização do Fórum Social Mundial, tínhamos em mente a luta antineoliberal. Quando foi escolhido o lema "Um outro mundo é possível", buscava-se combater tanto as políticas do chamado "livre-comércio", quanto o "Consenso de Washington" e sua concepção do "pensamento único", segundo a qual não haveria alternativas às políticas do Fundo Monetário Internacional (FMI), da Organização Mundial do Comércio (OMC) e do Banco Mundial (Bird).

Antes mesmo que realizássemos a segunda edição do Fórum Social, que assim como a primeira foi sediada em Porto Alegre, o cenário internacional começava a ser dominado pela guerra, com a invasão do Afeganistão pelas tropas lideradas pelos Estados Unidos. Conseguimos introduzir o tema da luta contra a guerra e pela resolução pacífica, justa e duradoura dos conflitos no mundo, com um seminário aberto por Noam Chomsky, que propôs soluções a vários desses conflitos. Antes da nova invasão do Iraque, realizaram-se as maiores manifestações da história, nos cinco continentes, o que, no entanto, não conseguiram impedir essa nova guerra.

A construção de "Um outro mundo possível" se choca com esse clima de guerra imposto pela política estadunidense, que promete se prolongar por longo tempo. Nenhum avanço, em nenhuma área essencial, será possível sem quebrar a espinha dorsal dessa política.

O Fórum Social Mundial e as possibilidades de propostas de soluções alternativas àquelas de força, que primam atualmente, foram sendo deslocadas, especialmente depois das grandes manifestações prévias contra a guerra do Iraque. Vários fatores contribuem para isso, um deles, não o menor, é a concepção de organizações não-governamentais, que mantêm suas visões no marco estreito da polarização "sociedade civil versus Estado", deixando de lado ou subestimando os conflitos políticos, particularmente porque necessariamente envolvem políticas de Estado, relações de poder, estratégias, mais além da falsa polarização de sua ótica.

Houve consulta às entidades envolvidas no Fórum Social para definir o temário da quinta edição, chegando-se a onze temas, que necessariamente são fragmentários. Nem o intercâmbio entre eles repõe a globalidade do cenário político mundial, que não pode composto pela soma de problemas parciais. Assim, o tema da guerra e da hegemonia imperial estadunidense não encontra o lugar privilegiado que tem na realidade concreta do mundo de hoje.

Buscando contribuir para preencher esse vazio, o Laboratório de Políticas Públicas da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj) e o Instituto Paulo Freire organizaram um seminário de balanço e perspectivas do movimento pela construção de um outro mundo possível, com alguns dos participantes que acompanharam o desenvolvimento desde o seu início.

O seminário ocorrerá durante o 5º Fórum Social Mundial e terá duas mesas, uma de balanço e outra de perspectivas, em que prevê que o tema da guerra, da hegemonia imperial estadunidense e da luta por soluções negociadas, pacíficas, justas e duradouras, na direção de um mundo sem guerras, tenha um papel fundamental.

Participarão do seminário Tariq Ali, Bernard Cassen, Boaventura de Souza Santos, Atílio Borón, François Houtar, Walden Bello, Ana Esther Ceceña, João Pedro Stédile, Moacir Gadotti, Raul Pont e Emir Sader. As mesas serão formadas nos próximos dias 28 (espaço 9, sala 901, das 15h30 às 18h00) e 30 (espaço 9, sala 901, das 12h00 às 15h00).

Emir Sader, professor da Universidade de São Paulo (USP) e da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj), é coordenador do Laboratório de Políticas Públicas da Uerj e autor, entre outros, de "A vingança da História".

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