A missão de erradicar a fome no Brasil passa necessariamente por jogos políticos. Não apenas em esfera nacional, dentro dos escritórios de Brasília, mas também no microcosmo dos pequenos municípios, onde o problema, em geral, é mais urgente. Na cidade de São João do Arraial, no Norte do Piauí, a Caixa Econômica Federal recebeu a denúncia de que o mercado credenciado para entregar os R$ 50 mensais do Fome Zero estaria obrigando os beneficiários a gastar o dinheiro ali mesmo, com produtos do estabelecimento.
Funcionários da Caixa confirmaram que, em ano de eleição, este tipo de reclamação é freqüente. Em todo o Nordeste, é comum a vinculação do pagamento de benefícios à garantia de forte influência política sobre a população. ¿ Normalmente, o comerciante credenciado para pagar exerce influência sobre o povo porque acaba virando dono do estabelecimento mais bem sucedido da região. Nestes pequenos municípios, é comum que ele apóie algum político e desperte a inveja dos opositores ¿ afirmou um funcionário da Caixa, no Piauí, que não quis se identificar.
Em alguns municípios pequenos, onde não há nenhuma instituição financeira, as pessoas cadastradas nos programas sociais do governo federal fazem a retirada do benefício em um correspondente bancário, que normalmente é um mercado credenciado por funcionários da Caixa. Os critérios, segundo informou a Caixa, são baseados na regularização fiscal, na localização do estabelecimento e no fluxo mínimo de dinheiro necessário.
A Caixa confirmou que recebeu um ofício do Comitê Gestor do Programa Fome Zero de São João do Arraial e fez uma investigação para apurar as supostas irregularidades. Nada, no entanto, foi constatado contra o comerciante Genival Magalhães, que diz estar sendo vítima de perseguição política. ¿ O meu mercado é um dos maiores da cidade e teve um aumento considerável no número de fregueses desde que fui credenciado para correspondente bancário, há dois anos. Está todo mundo com inveja. Por isso algumas pessoas, que são meus adversários políticos, estão tentando cancelar o Caixa Aqui do meu estabelecimento ¿ acusa o comerciante.
O Caixa Aqui é a máquina onde os 600 beneficiários do Fome Zero, no município de apena 5,7 mil habitantes, passam seus cartões para receber o dinheiro todo mês. Genival nega todas as acusações e diz que faz tudo para conquistar o freguês, mas nunca obrigou ninguém a comprar no seu mercado.
O integrante do comitê do Programa Fome Zero no município, Joelson Rodrigues, responsável pelas denúncias contra o comerciante, diz que recebeu reclamações de vários beneficiários, mas não descarta a hipótese de intrigas políticas terem motivado as acusações. "O Genival é filho de um suplente de vereador do PMDB. Aqui na cidade é bem definida a oposição entre PMDB e PDT. Pode até ser uma perseguição contra ele, mas o comitê não pode ignorar este tipo de denúncia. O melhor a ser feito seria estender o Caixa Aqui a todos os comerciantes da cidade", defendeu o representante do Fome Zero, que foi localizado pela reportagem do JB num mercadinho vizinho, concorrente ao de Genival.
O consultor da Caixa responsável pelo credenciamento de Joelson, Marcos Alves, disse que as denúncias estão sendo apuradas com cuidado por se tratar de um município onde o comerciante tem muitos adversários políticos, mas que espera chegar em breve a uma conclusão. Uma das providências tomadas foi pedir ajuda à Coordenadoria Estadual de Segurança Alimentar, que enviou uma assistente social para fazer um trabalho educativo com os comerciantes e a população.
A Caixa informou que faz visitas constantes aos correspondentes credenciados para avaliar a conduta. Em 2003, recebeu 19 denúncias deste tipo.