Rio de Janeiro, 18 de Maio de 2026

<i>Fome Zero</i> alimenta com feijão e arroz

A satisfação de Manoel José da Silva, 60 anos, ao ver o feijão cozinhando com o macarrão, na mesma panela, só se compara à alegria da mulher, Juraci Santana de Brito, 45, pela titularidade de um cartão magnético. (Leia Mais)

Domingo, 02 de Março de 2003 às 12:44, por: CdB

A satisfação de Manoel José da Silva, 60 anos, ao ver o feijão cozinhando com o macarrão, na mesma panela, só se compara à alegria da mulher, Juraci Santana de Brito, 45, pela titularidade de um cartão magnético. "Estou me sentindo importante porque nunca tinha visto e muito menos segurado um cartão assim", confessa ela, envergonhada, sorrindo com os lábios quase cerrados, para ocultar a falta de dentes. Mesmo analfabeta, Juraci sabe que o seu nome está no cartão cidadão, com o qual recebeu os primeiros R$ 50 do Fome Zero, cujos recursos começaram a ser distribuídos na semana passada em Acauã, interior do Piauí, a 480 quilômetros de Teresina. A outra cidade beneficiada é Guaribas, também no Estado. Juraci, o marido e duas filhas, de 15 e 10 anos, moram num casebre sem porta, de chão batido, e até agora comiam o que ganhavam dos vizinhos ou de alguma caça - um preá ou inhambu, roedor e ave típicos da região. As meninas estudam e poderiam receber o Bolsa-Escola. Mas o pai e mãe não solicitaram o benefício porque elas nunca foram registradas em cartório. Assim que o dinheiro do Fome Zero saiu, eles compraram feijão, óleo, farinha de trigo, bolacha, margarina e leite. Este foi o comportamento da maioria dos beneficiários do programa. Muitos, segundo Maria Teresa de Souza, integrante do comitê gestor local, o fizeram movidos pelo medo. "Temiam ser acusados de não comprar alimentos e perder o benefício." Iracilda de Souza, de 19 anos, que tem uma filha de um ano e três meses e está grávida, espera que o dinheiro garanta uma alimentação um pouco mais regular, pelo menos durante 15 dias, para ela e família. Iracilda mora com a mãe, uma irmã, o marido e o cunhado. Brincando diz que só come carne "uma vez perdida". Excluídos - No total foram cadastrados 500 moradores em Acauã. Mas só 221 receberam os R$ 50. O restante já é contemplado com outros benefícios do governo federal, como o Bolsa-Escola, Bolsa-Renda ou vale gás. Dos que receberam o dinheiro do Fome Zero, dois já foram excluídos da lista. Um por ser pensionista, sem direito ao benefício, e outro, por morar fora da cidade, estando de passagem por Acauã. "Elas mentiram, mas as pessoas denunciaram e tomamos as providências", diz Maria Rodrigues, representante do Sindicato dos Trabalhadores Rurais no comitê. Os donos das casas comerciais da cidade notaram uma melhora nos negócios. Um deles, Manoel Afrodísio, proprietário do Comercial Dudu, o mercadinho mais sortido da cidade, disse que no dia do pagamento as vendas subiram 6%. "Não é muita coisa para quem é pequeno, mas é sempre uma coisa boa", analisa. De acordo com suas contas, quando os negócios vão bem tira R$ 350 por mês. É consenso entre os comerciantes que o Fome Zero só terá algum impacto no comércio local se forem mantidos os antigos programas do governo federal. O Bolsa-Renda, distribuído desde setembro a pessoas cuja sobrevivência foi afetada pela seca, tem 541 beneficiários, cada um deles recebendo R$ 30. Norberto de Souza, da Mercearia Santa Luzia, observa que o comércio depende dos pagamentos de benefícios. Até o dia 20 de cada mês o que gira a roda dos negócios é o dinheiro dos aposentados. "Depois vêm o Bolsa-Escola e o Bolsa-Renda. Agora, com outro pagamento, vai melhorar." Corrupção - A pobreza é visível por toda parte em Acauã. Apenas 10 casas tem água encanada. Os moradores das outras casas são obrigados a buscá-la em depósitos, recorrendo a baldes e carrinhos de mão. A cidade também vive período tumultuado na política. O prefeito, Antonio Rodrigues, do PMDB, foi colocado sob suspeita pela Polícia Federal de envolvimento com o crime organizado. Também é acusado de corrupção pelos opositores. O prefeito nega e se diz vítima de perseguição política.

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