Rio de Janeiro, 02 de Outubro de 2026

Fome e abundância lado a lado na Etiópia

Sexta, 22 de Julho de 2011 às 02:02, por: CdB

Enquanto milhões de pessoas passam fome no Nordeste Africano, investidores estrangeiros colhem na mesma região toneladas de grãos destinados à Ásia ou aos países do Golfo.

A temperatura é de quase 40° C. Agachado, um garoto arranca a erva daninha que cresce no meio de um campo de cana-de-açúcar. Um indiano passa por ele, observando-o com o canto do olho.
 
Red tem 8 anos e ganha 80 centavos por dia trabalhando nesta plantação, no oeste da Etiópia. É mais barato do que os pesticidas. O fazendeiro indiano deverá ganhar milhões nos próximos três ano, exportando a colheita para longe da Etiópia.
 
Em um dos países mais pobres do mundo, o abarcamento das terras agrícolas está apenas começando, e no pior momento. A fome ataca mais uma vez a Etiópia. A seca devastadora que atingiu o Nordeste Africano nos últimos meses, ameaça mais de 10 milhões de pessoas.
 
"Aqui ainda é um deserto, mas logo vamos plantar novos campos de cana-de-açúcar e de dendê", diz Karmjeet Singh Sekhon, enquanto dirige sua pick-up.
 
A direita e à esquerda da pista, o mato já está pegando fogo. Aos 68 anos, o investidor indiano é um homem apressado. Sua grande fazenda no oeste da Etiópia ocupa uma área de 300.000 hectares, uma das maiores da região.

Corrida por biocombustíveis

Em 2008, após o aumento drástico dos preços dos alimentos e a fome gerada por ele, uma corrida sem precedentes foi lançada para se apropriar as terras agrícolas na África, América do Sul e Ásia.
 
Um relatório do Banco Mundial revela que 45 milhões de hectares de terras foram arrendados em 2009. Estima-se que até 2030, nos países em desenvolvimento, a cada ano seis milhões de hectares de terras agrícolas serão arrendados, dois terços na África subsaariana e na América do Sul.
 
Acres de terras usados para alimentar não só países como a Índia e os Estados do Golfo, mas também uma maneira para que estes países desempenhem papéis de liderança na corrida para produção de biocombustíveis. "A grilagem é um grande problema. O véu de sigilo que prevalece sobre este comércio deve ser levantado para que os pobres não paguem o preço alto, perdendo suas terras", adverte Ngozi Okonjo-Iweala, Diretora do Banco Mundial.
 
Há 26 anos atrás, a terrível fome que atingiu a Etiópia matou mais de um milhão de pessoas, apesar da ajuda internacional. Este cenário está se repetindo. Atualmente, a maioria dos alimentos é importada.

Karmjeet Singh Sekhon. Sua propriedade é tão grande que não dá para atravessá-la a pé. (Philipp Hedemann)

País pechinchado

Na Etiópia, cerca de 85% da população vive da agricultura. Mas a maioria dos magros campos são estéreis e arados com métodos arcaicos. A terra dá uma das menores produções no mundo. Com o aluguel das terras agrícolas para os investidores estrangeiros, o governo etíope espera lançar uma onda de modernização.
 
Todas as terras são propriedade do governo de Addis Abeba que espera nos próximos anos destinar três quartos à agricultura. Uma meta ambiciosa, pois até agora apenas 3,6 milhões de hectares, situados principalmente no oeste do país, foram cedidos aos investidores.
 
Mas as coisas podem mudar rapidamente com o baixo custo do aluguel, de apenas 6 dólares por hectare, por ano. A Etiópia tornou-se o país favorito para os investimentos em agronegócio. Para o desespero de agricultores locais como Ojwato.
 
O agricultor está diante de seu torrão de apenas um hectare. Leva apenas alguns minutos para atravessá-lo. Bem longe das horas de estrada necessárias a Karmjeet Singh Sekhon, a bordo de sua pick-up, para cruzar seu campo de cana-de-açúcar.
 
Sabendo que nos campos vizinhos as culturas são exportadas para o estrangeiro, enquanto o país morre de fome, o pequeno agricultor protesta: "os estrangeiros haviam prometido trazer em troca água, eletricidade e hospitais. Mas, no final das contas, apenas alguns de nós já trabalharam em seus campos, para ser mal pagos ainda por cima".

Philipp Hedemann, swissinfo.ch/InfoSud
Adaptação: Fernando Hirschy

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