A Argentina caminha para mais um confronto com o FMI. O problema principal é o impasse na renegociação da dívida pública com credores privados. Como se sabe, os credores estão em pé de guerra contra a proposta argentina de aplicar um deságio de 75% aos títulos. Sob pressão dos detentores dos bônus em moratória, os governos dos países do G-7 conclamaram o governo Kirchner a "negociar de boa-fé". O FMI, por seu turno, ameaçou condicionar a segunda revisão do acordo com a Argentina e o desembolso dos recursos a ela vinculados a "progressos" na reestruturação da dívida pública - leia-se, a uma melhora da oferta argentina a seus credores.
A resposta da Argentina foi dura: avisou que suspenderá pagamento de US$ 3,1 bilhões ao próprio FMI, previsto para o início de março, se não houver sinalização clara de que a segunda revisão será aprovada. Resposta dura, porém defensável. Só seria legítimo não aprovar a revisão do acordo se o FMI tivesse argumentos sólidos, baseados em descumprimento de critérios de desempenho fixados no acordo. Não parece ser esse o caso.
O que está se configurando, pela enésima vez, é a utilização do Fundo como agência de cobrança de créditos privados. A intensificação desse conflito pode criar sérios problemas para a recuperação da economia da Argentina, que caminha a passos largos desde 2003 (ver Argentina: o balanço que faltou, Agência Carta Maior, 13 de janeiro de 2004). Por outro lado, ceder às pressões dos credores e do FMI pode resultar em uma carga de pagamentos excessiva, capaz de desestabilizar a situação fiscal e de balanço de pagamentos.
Um novo confronto Argentina-FMI criará um dilema para o Brasil. A política internacional do governo brasileiro tem duas faces: a financeira, conduzida pelo Ministério da Fazenda, e a comercial-diplomática, a cargo do Itamaraty.
Na Fazenda e no Banco Central, predomina uma orientação cautelosa e conservadora. Quem dá o tom é um grupo de economistas mentalmente colonizados que, tendo passado por uma espécie de lavagem cerebral em universidades americanas ou no próprio FMI, estão sempre preocupados em se ater à sabedoria convencional. As decisões são tomadas com um olho no mercado financeiro e outro no FMI.
Essa fidelidade canina rendeu os seus frutos. O Brasil de Lula virou o "poster boy" do FMI, apontado como exemplo a vários países, inclusive à própria Argentina de Kirchner. Sem grande sucesso, diga-se de passagem, uma vez que a economia argentina cresceu cerca de 8% no ano passado, enquanto o "poster boy" contentou-se com crescimento zero.
No Itamaraty, a postura é diferente. Em meio a muitas dificuldades, procura-se tomar novas iniciativas em política externa e redirecionar negociações comerciais altamente problemáticas, um dos legados do medíocre governo Fernando Henrique Cardoso. Nos embates da Alca, com a União Européia e na OMC, o apoio da Argentina é fundamental - particularmente na Alca, espaço de negociação em que são muito limitadas as possibilidades de alianças. O Mercosul, que continua a ser uma das prioridades brasileiras em termos políticos e comerciais, vem atuando de forma razoavelmente coesa nas negociações comerciais, graças ao eixo Argentina-Brasil.
Se o impasse com o FMI e os credores se agravar, a Argentina precisará do apoio do Brasil. Qual será a reação brasileira? O governo Lula ficará possivelmente se contorcendo em dúvidas hamletianas. De um lado, a Fazenda e o Banco Central farão o possível para manter o Brasil longe da "contaminação" argentina e para preservar o status de país-modelo do FMI. Do outro, o Itamaraty certamente preferirá sair em defesa da Argentina para não alienar um aliado fundamental nos campos comercial e político.
Na última vez em que Argentina e FMI se enfrentaram, em setembro do ano passado, Kirchner chegou a suspender por alguns dias o pagamento de uma parcela devida ao Fundo. Naquele episódio, como se sabe, a Argentina acabou levando a melhor. O FMI recuo