Rio de Janeiro, 05 de Setembro de 2026

Flip debate dilemas e decisões extremas

Dilemas e decisões extremas foram os temas do segundo dia de debates na Festa Literária Internacional de Paraty (Flip), que contou com a participação das autoras Patrícia Melo, de Inferno e Valsa Negra, e Lionel Shriver, do premiado Precisamos falar sobre o Kevin, nesta quinta-feira.

Sexta, 06 de Agosto de 2010 às 08:01, por: CdB

Dilemas e decisões extremas foram os temas do segundo dia de debates na Festa Literária Internacional de Paraty (Flip), que contou com a participação das autoras Patrícia Melo, de Inferno e Valsa Negra, e Lionel Shriver, do premiado Precisamos falar sobre o Kevin, nesta quinta-feira. As escolhas pessoais dos personagens e suas inevitáveis consequências se apresentam de forma oposta na narrativa das duas autoras. Enquanto em O Mundo Pós-aniversário, último romance de Lionel Shriver editado no Brasil, a história se desenvolve a partir do momento em que a personagem principal, Irina, se vê diante de uma decisão que vai mudar sua vida, na obra de Patrícia Melo, os personagens, em geral, preferem acreditar que seus caminhos fazem parte de uma espécie de destino implacável, sobre o qual não têm a menor gerência ou responsabilidade. É mais confortável acreditar que não há saída.  – Quando escrevi O mundo pós-aniversário, eu, como a Irina, estava em um momento de decidir entre dois amores. E quando tomamos grandes decisões, normalmente não temos informações sobre as duas possibilidades, no momento da escolha. A tentativa de construir os dois universos, neste livro, era uma maneira de mostrar que as nossas decisões podem desenhar diferentes futuros e isso se aplica tanto à escolha entre dois amantes quanto entre dois empregos ou a qualquer outra escolha. A ideia do romance é reconstruir esse processo mental pelo qual passamos –, explica Lionel Shriver. Partindo deste tema, após a leitura de trechos dos livros mais recentes das duas autoras - Ladrão de cadáveres, de Patrícia Melo e O mundo pós-aniversário - a conversa avançou para a análise da violência como linguagem que fala sobre o mundo contemporâneo e terminou com um debate sobre a natureza da maldade humana e a construção da moralidade, outros dois pontos em comum entre a literatura de Lionel e Patrícia. Nos livros da escritora brasileira, a violência é uma temática marcante, já que, segundo ela própria, é algo sobre o qual ela escreve na tentativa de entender. Já Precisamos falar sobre o Kevin é um romance de investigação psicológica sobre uma mãe que tenta compreender as motivações de um filho genocida. – Todos os temas que eu trabalho são uma tentativa de entender certas questões. Ao contrário de O Matador, por exemplo, que eu coloco a maldade como uma questão social, como uma necessidade de uma pessoa invisível em uma sociedade injusta, neste último romance O ladrão de cadáveres, apresento uma outra crença minha, de que é a bondade que você aprende. A maldade é sempre o caminho mais fácil. Eu realmente acredito que a maldade é inata, mas também acredito que o ímpeto civilizatório da bondade é um recurso ligado ao nosso instinto de preservação. Ao mesmo tempo em que temos a capacidade de destruir, temos esse desejo obstinado e engenhoso de construir. Esta é a história da humanidade –, acredita Patrícia Melo. Escritora, roteirista e dramaturga, Patrícia Melo volta à Flip após uma participação em 2003. Discípula de Rubem Fonseca, a autora é conhecida por esmiuçar o funcionamento do raciocínio criminoso em romances policiais como Inferno, vencedor do Prêmio Jabuti de Literatura, em 2001. A americana Lionel Shriver ganhou, em 2005, o prêmio Orange, na Grã-Bretanha, por Precisamos falar sobre o Kevin, seu oitavo livro, e escreve para jornais norte-americanos e ingleses. O segundo dia da Flip, que está em sua oitava edição, conta ainda com a participação de autores como Moacyr Scliar, Peter Burke e da chilena Isabel Allende, ícone do realismo mágico que marca a prosa latino-americana, com mais de 56 milhões de livros vendidos em 30 idiomas, desde o primeiro sucesso A casa dos Espíritos, de 1982.

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