Para levantar, é preciso cair. Essa é uma das primeiras lições que se aprende nos tatames. Titular da equipe brasileira de judô desde 1995, o meio-médio Flávio Canto sofreu sua maior queda em 2000, quando não conseguiu a classificação para as Olimpíadas de Sydney.
Atualmente, quatro anos depois, o carioca - medalha de ouro em Santo Domingo e no Pan de Isla Margarita, em abril - deu a volta por cima, garantiu sua vaga para os Jogos de Atenas, e vai à Grécia com chances reais de subir ao pódio. A medalha olímpica viria para coroar uma carreira marcada não só pelas vitórias, mas, principalmente, pelas lições de vida.
- Sydney foi um marco para mim; uma lição de humildade. Passei a vida inteira sonhando com aquela Olimpíada, e acabei indo como reserva. Viajei com a seleção, mas para servir e ajudar meus companheiros durante os treinos - lembra Canto.
- Apesar de ter ido aos Jogos de Atlanta, em 96, eu precisava aproveitar ao máximo aquela experiência, e a única maneira era sendo o melhor reserva da equipe. Me senti útil, e voltei da Austrália com outra cabeça - completa o judoca, que terminou em sétimo lugar em Atlanta.
Ao chegar ao Brasil, Canto deu início a um projeto social, com aulas gratuitas de judô para crianças da favela da Rocinha. Conseguiu apoio da Prefeitura do Rio e da Universidade Gama Filho. O trabalho com as crianças servia como motivação para ele se manter no esporte e seguir em busca de novas conquistas, mas as dificuldades quase interromperam o projeto.
- Há dois anos perdemos o apoio da Prefeitura, e chegamos a ter que treinar na praia. Conversei com meu irmão e fundamos uma ONG chamada Reação. Hoje temos dois professores, além de dois monitores, que são da própria comunidade - ressalta.
- O judô é um esporte formador de caráter. Você se depara com todas as emoções possíveis, como medo e raiva, mas precisa saber controlá-las. E o judô te dá esse equilíbrio. Percebo que estamos conseguindo mexer com a vida destas crianças - afirma.
O envolvimento com o projeto era grande, mas ele não deixava de ser um atleta de ponta. Hexacampeão sul-americano e tetracampeão pan-americano sênior, Canto voltou a ser titular da seleção brasileira em 2002. A dedicação aos treinamentos e a fé eram as forças que moviam o judoca cada vez mais para frente.
- Quando me preparo para uma competição, fico ainda mais atento para melhorar como pessoa fora dos tatames. O judô me ajuda muito a ficar mais próximo de Deus - diz Canto.
- Na última luta que fiz na seletiva para Atenas, a competição estava empatada em 1 a 1. Olhei para o céu e disse: 'O que você escolher pra mim, está bom. Vou dar o máximo aqui e fazer o que sei de melhor, mas se você achar que é melhor eu perder, acredito que seja para o meu bem' - completa.
Praticante de Yoga e meditação transcendental há oito anos, Canto busca fé a explicação para o sucesso nas competições. Segundo ele, tudo tem 'conspirado a seus favor'.
- Até 2000 eu nunca tinha perdido uma seletiva. Todos diziam que eu era absoluto na categoria, mas as minhas vitórias eram sempre no sufoco. E hoje continua sendo assim. Acho que tenho tido mais sorte do que os outros - afirma.
- Essa é a fé que eu busco. Acreditar que tudo que acontece tem alguém controlando tudo isso. Existe uma razão maior do que a sua. Acho que as coisas têm conspirado a meu favor - finaliza.
Flávio Canto busca medalha inédita em Atenas
Quinta, 06 de Maio de 2004 às 21:17, por: CdB