Rio de Janeiro, 14 de Fevereiro de 2026

Finochietto, Discépolo e Côrtes

Por Luiz Paulo Viveiros de Castro - Os três personagens acima, por motivos diferentes, guardam estreita relação entre si. Os dois primeiros, Finochietto e Discépolo, têm em comum, além do primeiro nome - Enrique, o fato de serem contemporâneos e dois dos argentinos mais famosos ao longo do século XX. (Leia Mais)

Sexta, 31 de Agosto de 2007 às 07:36, por: CdB

Os três personagens acima, por motivos diferentes, guardam estreita relação entre si. Os dois primeiros, Finochietto e Discépolo, têm em comum, além do primeiro nome - Enrique, o fato de serem contemporâneos e dois dos argentinos mais famosos ao longo do século XX. Finochietto (Enrique Finochietto, 1881/1948) foi o mais famoso médico da Argentina na primeira metade do século passado, criador de diversas técnicas cirúrgicas até hoje utilizadas no mundo inteiro, além de inventor de um sem número de equipamentos médicos, tais como o frontolux, aquele foco de luz que o cirurgião usa na testa para iluminar o campo operatório, o porta-agulhas, a pinça dentada, o aspirador cirúrgico, a cânula para transfusão, o separador intercostal com cremalheira para operações toráxicas, muitos dos quais levam seu nome.

Discépolo (Enrique Santos Discépolo, 1901/1951), por sua vez, foi um dos maiores autores de tango de todos os tempos, criador de Yira, Yira, Cafetín de Buenos Aires, Esta noche me emborracho, Chorra, dentre dezenas de tangos famosos, quase todos gravados por Carlos Gardel. Se não o mais conhecido, certamente o seu mais emblemático tango é Cambalache, que além da beleza musical traz na letra uma crítica pessimista e amarga à confusão de valores da sociedade da época, dessacralizando mitos e mostrando uma realidade moral de forma cruel. A profundidade de Cambalache levou Dante Lyniera e Carlos de la Púa a definirem Discépolo como, mais que um compositor, um filósofo, e Pierre Vidal-Naquet a reproduzir a letra em seu ensaio Les assassins de la mémoire, sobre o revisionismo neonazista na europa comtemporânea.

Em Cambalache ouvimos “Que el mundo fué y será una porquería, já lo sé ...”, “Si uno vive en la impostura y otro roba en su ambición”, dentre outras pérolas, terminando com o famoso “El que no llora no mama y el que no afana es un gil” que tem servido de verdadeiro lema de vida de muitas pessoas em diferentes lugares: “quem não chora não mama e quem não rouba é um otário”. Côrtes (Sérgio Luiz Côrtes da Silveira), por sua vez, tem em comum com Finochietto o fato de também ser médico e ortopedista de grande fama, sendo também conhecido pelos frequentes atentados e ameaças de morte que diz sofrer nos últimos anos, embora ainda esteja vivo, e muito vivo. Já com Discépolo, a relação de Côrtes passa pela profunda identificação de sua administração na Secretaria de Saúde do Estado do Rio de Janeiro, com a letra de Cambalache, que deveria ser alçado a hino oficial de seu setor de compras. E o “cambalacho” envolvendo o ilustre nome do falecido Finochietto seria impensável até mesmo para Discépolo, quando exclamou “Qué falta de respeto, qué atropello a la razón”.

Mas, afinal, como conseguiram envolver o respeitável nome de Finochietto “en la vidriera irrespetuosa de los cambalaches” ? Simples: para comprar 8.940 peças de simples “oleados”, aquela peça de pano plastificado que é colocada entre o paciente e a mesa de cirurgia e não custa mais que R$ 5 no atacado, do tipo toalha de mesa de bar, a Secretaria de Saúde rebatizou os “oleados” de “oleado tipo finocheto”, escrito assim mesmo, já que o genial autor da patranha nunca deve ter ouvido falar de Finochietto. Com tão singela artimanha, cada peça de pano plastificada de 1,30 X 0,90 metros, que no varejo da  Rua Buenos Aires (olha outra coincidência) não sai por mais de R$ 5, foi vendida a R$ 96,80, enquanto que as peças de 1,30 X 0,90 metros foram vendidas por R$ 72,80. A diferença de preços entre a compra no balcão de uma lojinha no centro da cidade e a feita pela Secretaria de Saúde chega a setecentos mil reais, numa diferença de quase 1.500%.

Se tivesse oportunidade de ter conhecimento do uso do seu nome em tamanha fraude, Finochietto certamente cantarolaria o final de Cambalache de seu conterrâneo Discépolo: “Es lo mismo e

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