Rio de Janeiro, 14 de Maio de 2026

Fim da linha

Por Marcio Pochmann - Em todas as eleições presidenciais, de 1989 a 2002, o povo votou em massa nos candidatos que defenderam as propostas de mudança. Mas a mudança ainda não ocorreu. O documento Esperança e mudança, lema do MDB em oposição ao regime militar, já está completando três décadas de existência. (Leia Mais)

Quinta, 11 de Agosto de 2005 às 20:54, por: CdB

Nos momentos agudos nacionais, a solução política tradicional tem sido pelas alianças "por cima" entre as elites, em que o povo fica, na maioria das vezes, distante. Foi assim na transição transada da ditadura militar para o atual regime democrático, o mais longo período de toda a curta História da democracia brasileira, que já completou 20 anos de existência.

Também poderia ser lembrado aqui o sucedido na Independência Nacional, assim como na Proclamação da República, entre outros períodos decisivos, em que o acordo "por cima" tornou o povo um mero expectador. Toda vez que o povo ameaçou escrever a História com suas próprias mãos apareceu algum sórdido contra elemento do escapismo golpista. "Façamos antes que o povo a faça", dizia o lema da elite progressista do passado não tão distante.

No caso da experiência recente da transição transada, observa-se como o país continua a colher tempestade derivada dos ventos que foram plantados ao longo da lenta e gradual abertura política dos militares. Naquela época, processou-se a rápida passagem do bi-partidarismo - em que apenas a Arena governava e somente o MDB fazia a oposição consentida -, para o multipartidarismo sem partidos consolidados e hegemônicos no plano nacional.

Num país de dimensão continental, com mais de 100 milhões de eleitores e com enorme desigualdade social e econômica, a existência de partidos com a capacidade de constituir grandes convergências nacionais e maiorias políticas para o exercício de governo é algo extremamente complexo, senão praticamente impossível. Por conta disso, a transição política da ditadura pressuporia a realização de uma profunda reforma política, capaz de assegurara as bases de um novo sistema político efetivo e eficiente para dar conta do enorme desafio que representa a consolidação democrática no Brasil que insiste em perseguir a condição de capitalismo selvagem.

Sim, é esse o perfil característico de um país que simplesmente se nega a realizar uma profunda reforma agrária, uma efetiva reforma tributária em que os ricos paguem impostos e uma ampla reforma social que permita aos pobres, de fato, serem beneficiados com a universalização com qualidade da educação, saúde, habitação e transporte. Só para citar um exemplo: a reforma agrária do governo Lula, no ritmo com que vem sendo realizada (gastos equivalentes a 1,8 bilhões de reais por ano), levará exatos 61 anos para atingir a totalidade das famílias atualmente sem terras em todo o país. E isso que o governo Lula é muito mais exitoso que os governos anteriores em termos de reforma agrária.

Pois bem. O que se assiste desde a derrota do projeto de eleições diretas para presidência da República, em 1984, tem sido a formação de alianças pré e pós-eleitorais de ocasião, não constituídas a partir de um programa de governo ungido das urnas. Como dizia Getúlio Vargas, a conquista do governo pressupõe a realização de três eleições.

A primeira que se dá na forma do voto, onde todos os eleitores podem participar. Decidido o pleito, com o partido vencedor, ocorre uma segunda eleição - somente entre os partidos interessados - na definição da frente política que irá compor a governabilidade.

Por fim, a terceira eleição se desenvolve sucessivamente ao longo de todo o mandato apenas entre os ministros e partidos da base de apoio para a definição dos rumos do governo.

Nesse ritmo, a democracia tem fôlego curto, conforme aponta a História política nacional. O programa defendido durante a realização da primeira eleição junto aos eleitores, fica em segundo plano, somente lembrada pela oposição de plantão ao longo do mandato.

Sem cumprir o programa que foi aprovado nas urnas, todo o governo se transforma num grande embuste. E o que se pode dizer dos governos que vieram de 1985 para cá. Na Aliança Democrática, Tancredo criou uma comissão para o programa econômico que ficou a ver navio. O que falar, então, de Collor, dos cinco dedos de FHC e ag

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