"O conteúdo é tudo" é a frase favorita de Sumner Redstone, presidente da Viacom, mas boa parte de Hollywood já se esqueceu do significado da frase.
Diante das redes vorazes de distribuição que exigem um fluxo constante de filmes, programação de redes e lançamentos em DVD, a maioria dos executivos de Hollywood vê o conteúdo como produto, e nada mais. E a maior parte dos produtos que eles geram quase não têm conteúdo. São o equivalente, em termos de entretenimento, a um refrigerante diet: algo que enche o estômago, mas não chega a satisfazer.
É o caso dos blockbuster comuns do verão americano. Sua estréia costuma ser precedida por duas ou três semanas de frisson intenso na mídia, acompanhado de divulgação maciça. Mas, depois de um fim de semana de estréia multimilionário, o filme frequentemente desaparece quase sem deixar rastros. Na ausência de conteúdo real, ele simplesmente evapora.
Mas duas das mais comentadas histórias de sucesso deste ano no cinema - "A Paixão de Cristo", de Mel Gibson, e "Fahrenheit 9/11", de Michael Moore - comprovam que filmes com conteúdo podem superar os entretenimentos que constituem mero passatempo para o público.
Os dois filmes podem ser, até certo ponto, casos excepcionais. Hollywood poderia tentar produzir outra história bíblica ou polêmica política, mas, sem o engajamento apaixonado de um Gibson ou Moore, trabalhos que fossem meras cópias certamente iriam fracassar em termos comerciais.
Mas, se Hollywood permitisse que mais cineastas - roteiristas, diretores e produtores - fizessem filmes em que realmente acreditam, é bem possível que descobrisse que existe um público ansioso por consumir produtos que merecem uma discussão séria.
E os filmes com conteúdo real não precisam ser apenas sérios. "Procurando Nemo", o filme de maior bilheteria de 2003, e "Shrek 2," o vencedor deste ano até agora, satisfazem ao público porque possuem conteúdo, mesmo que seja brincalhão e divertido.
Outros trabalhos, como "O Dia Depois de Amanhã", um filme-catástrofe que se faz passar por aviso ambiental, conseguem simular um mínimo de conteúdo. Hollywood costuma dizer que a divulgação boca-a-boca é uma das chaves para o sucesso ou fracasso de um filme. Mas se o público não tem o que comentar - ou seja, se não existe conteúdo, quer seja bom ou ruim - fica difícil sustentar qualquer tipo de boca-a-boca.
O fato é que muitos dos sucessos comerciais do verão são espetáculos chamativos, mas aos quais faltam personagens, tramas e temas realmente interessantes. Basta ir a qualquer shopping e, quando o público deixa os cinemas, ouvir o que as pessoas comentam sobre o filme ao qual acabam de assistir. Quando se trata de um filme sem conteúdo, o mais frequente é ouvir: "E agora, vamos fazer o quê?", questionou.
"Mas os filmes que possuem conteúdo sempre deixam o público falando. Eu me recordo, quando criança, de ouvir meus pais e os amigos deles falando sobre o final de 'Psicose' como se compartilhassem um segredo. Uma década mais tarde, o público aplaudia filmes como 'Sem Destino', 'A Primeira Noite de um Homem', 'O Poderoso Chefão' e 'Chinatown', sentindo que descobrira toda uma nova maneira de enxergar a América.
"Paixão de Cristo" e "Fahrenheit". embora possam atrair a públicos radicalmente opostos em termos políticos e culturais, falam a mesma linguagem. Dizem alguma coisa real. Conseguiram fazer os cinéfilos falar outra vez porque não são meros produtos, mas filmes que ostentam seu conteúdo com galhardia.