Um aviso para Richard Gere: as coisas não são o que parecem em Dharamsala, a idílica residência do Dalai Lama no exílio, no norte da Índia, e que também abriga muitos outros refugiados tibetanos.
O aviso está sendo lançado por um cineasta tibetano na casa dos 30 anos, Pema Dhondup, cujo primeiro longa-metragem digital, ``We're No Monks'', procura desconstruir a imagem dos tibetanos como sendo monges pacíficos que vivem em cenários de esplendor hollywoodiano como as mostradas em ``Sete Anos no Tibete'', de Jean-Jacques Annaud, ou ``Kundun'', de Martin Scorsese.
Formado em 2002 pela Escola de Cinema da USC, Dhondup diz: ''A trama gira em torno de quatro tibetanos jovens e insatisfeitos de Dharamsala. Quando um assalto leva um policial indiano durão a suspeitar deles, o incidente os leva a fazer algo mais dramático: eles planejam uma missão a Délhi para sequestrar um diplomata chinês.''
Dhondup afirma que o fato de o filme mostrar tibetanos jovens fazendo algo violento constitui um aviso do que pode acontecer se o mundo continuar a ignorar as frustrações de uma geração que cresceu no exílio na Índia e que já começa a questionar a via pacífica e o ``caminho do meio'' pregados pelo Dalai Lama, que já começa a envelhecer.
``Se Sua Santidade assistir ao filme, ficará chocado, mas não é essa minha intenção'', disse Dhondup, que procura organizar uma sessão especial para mostrar o filme ao Dalai Lama.
``Quero que ele veja o filme para ficar mais motivado a convencer o mundo que a causa tibetana, não violenta, ainda pode dar uma virada em outro sentido.''
Quanto à imagem perfeitamente bela que Hollywood faz do Tibete, como se fosse um Shangri-la, Dhondup diz que ela tem seus prós e contras, mas que já é hora de tibetanos oferecerem uma visão mais realista.
``Nem todos os tibetanos são monges'', disse ele. ``Temos os mesmos vícios que o resto do mundo.''
Com cenas que mostram tibetanos jovens fumando e bebendo, ''We're No Monks'' de fato joga por terra muitas noções pré-concebidas.
Mas Dhondup também está disposto a ampliar sua visão cinematográfica. Ele está desenvolvendo uma história baseada num rei tibetano lendário. ``É algo como um 'Senhor dos Anéis' tibetano'', explicou.
Primeiro Dhondup pretende avaliar a reação ocidental a ''Monks''. ``Este filme pode topar com muita resistência por parte de platéias ocidentais que talvez não queiram abrir mão da imagem que já têm do Tibete'', diz o diretor.
``Não é apenas o conteúdo do filme, mas também os visuais em estilo documentário. Praticamente não se vê nenhum mosteiro ou templo. Assim, a imagem visual do Tibete também está sendo rompido. Mas o reconhecimento precisa vir do conteúdo do filme.''