Rio de Janeiro, 03 de Abril de 2026

Filme sobre pensamento de Celso Furtado ilumina o Rio

Questões essenciais do pensamento de Celso Furtado, ainda a serem definitivamente encaradas no Brasil, são reafirmadas pelo documentário O Longo Amanhecer, de José Mariani. (Leia Mais)

Sexta, 28 de Julho de 2006 às 10:34, por: CdB

O crescimento no Brasil sempre foi essencialmente gerador de desigualdade e concentração de renda. Para mudar esse quadro, é necessário estudar o subdesenvolvimento e as estruturas dominadas pelas elites que o perpetuam, além de o Estado ter papel fundamental para que haja crescimento com distribuição de poder e de renda. Essas questões essenciais do pensamento de Celso Furtado, ainda a serem definitivamente encaradas no Brasil, são reafirmadas pelo documentário O Longo Amanhecer, de José Mariani, que teve sua pré-estréia na última terça-feira no Rio de Janeiro.

Além de render homenagem a um dos maiores economistas do mundo no último século, falecido no final de 2004, o filme é uma aula da história do Brasil na segunda metade do século 20. A narração, baseada sobretudo em depoimentos de Celso Furtado, além de outros pensadores do Brasil como Maria da Conceição Tavares e Francisco de Oliveira, se dá sempre sobre o prisma do desenvolvimento e da necessidade de reformas estruturais no país, que colocassem as desigualdades e a pobreza como questões centrais a serem resolvidas.

Em um dos momentos centrais do documentário, Furtado afirma que a história e o desenvolvimento da América Latina sempre estiveram condicionados à estrutura de poder da região, "que nunca foi desconcentrada". O professor acrescenta que as elites dos países latino-americanos querem ter "padrões de consumo do Primeiro Mundo", mas lembra que o PIB (Produto Interno Bruto) nos países desenvolvidos é quatro ou cinco vezes maior do que os verificados na América Latina. "O problema é estrutural, e precisa de reformas estruturas profundas para ser superado", afirma ele, destacando a necessidade de desconcentrar o poder para desconcentrar renda e de desconcentrar renda para desconcentrar o poder.

O filme também mostra como o embate entre monetaristas e desenvolvimentistas vem de longe no Brasil. Presente de forma tímida em alguns momentos nos governos Fernando Henrique Cardoso, em que os primeiros tiveram ampla predominância, e reaquecido no governo de Luiz Inácio Lula da Silva, com um relativo ganho de fôlego dos desenvolvimentistas, o debate foi marca, por exemplo, da década de 1950. Naquela ocasião, os monetaristas, personificados nas figuras de Roberto Campos e Octávio Bulhões, se chocaram com os desenvolvimentistas, liderados por Furtado, que vencem o debate e subsidiam um período de crescimento do Brasil sob o comando do Estado.

Em outra passagem do documentário, o economista afirma que o Brasil só existe como é hoje - territorialmente, economicamente - pelo papel que o Estado teve. Para ele, a ojeriza ao papel do Estado apregoada por alguns "nega a importância desse Estado", que, para Furtado, "nunca foi grande o suficiente para poder enfrentar o tamanho dos problemas do Brasil".

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