Tido como o primeiro filme do mundo a retratar um Jesus negro, Son of Man apresenta Cristo como um revolucionário africano dos tempos modernos, questionando a imagem ocidental do filho de Deus como sendo um salvador plácido de cabelos claros e olhos azuis. A produção sul-africana, que estréia no domingo no Festival Sundance, nos EUA, transfere a história da vida e morte de Jesus da Palestina do século 1 para um Estado africano dos tempos atuais mergulhado em guerras e na pobreza.
Cristo nasce na barraca de uma favela, algo bastante distante da manjedoura de um estábulo de Belém. A mãe dele, Maria, é virgem, mas determinada o suficiente para discutir com os anjos. Policiais armados até os dentes temem a mensagem dele de igualdade e ele termina pendurado em uma cruz.
- Queríamos olhar para o Evangelho como se ele tivesse sido escrito por assessores de políticos e, depois, tirar essa carga dele e olhar para a verdade. A verdade é que Cristo nasceu em um Estado ocupado e defendeu a igualdade em um momento no qual isso não era muito aceitável - disse o diretor Mark Dornford-May.
Ao apresentar Jesus como um africano negro, Dornford-May espera chamar atenção para o contexto político do Evangelho, quando Israel era ocupado pelos romanos, e questionar a forma como o Ocidente vê Cristo -- um homem moderado e humilde, de aparência européia.
- Temos de aceitar que a imagem de Cristo acabou sendo um pouco sequestrada. Ele ficou com os cabelos muito loiros e com os olhos azuis. O mais importante sobre a mensagem de Cristo é que ela é universal. A aparência dele não importa - afirmou.
Na realidade, houve um filme chamado Black Jesus, em 1968, com Woody Strode. Mas ele é visto mais como um comentário político do que uma interpretação sobre a vida de Cristo.
Realizado pela mesma companhia responsável pelo premiado Carmen na África, Son of Man é falado na língua xhosa, característica por seus estalos de língua, e em inglês. E foi filmado em favelas perto da Cidade do Cabo. Jesus começa a pregar depois de se encontrar com Satã, que aparece vestindo uma capa de couro preto, durante um tradicional ritual xhosa de circuncisão.
Ele reúne seguidores de facções rebeldes de todo o país e defende que eles abaixem as armas e enfrentem seus dirigentes corruptos por meio de protestos pacíficos e pregando a solidariedade. Segundo Dornford-May, que diz concordar com os ensinamentos de Cristo sem necessariamente acreditar no filho de Deus, no filme, Jesus é um ser divino que surge dos mortos. A ressurreição dele pretende ser um sinal de esperança para a África, o continente mais pobre do mundo.
-O final (do filme) é otimista, mas realista - disse.