Uma comédia iraniana premiada que zomba dos clérigos conservadores que presidem a República Islâmica está quebrando recordes de bilheteria, depois de passar com dificuldade pela censura rígida do país.
Os cinemas que exibem "The Lizard" (O Lagarto) têm esgotado seus ingressos com dias de antecedência e estão acrescentando sessões tarde da noite para fazer frente à enorme demanda. O filme relata as aventuras de um ladrão que escapa da prisão, disfarçando-se nas vestes e no turbante de um clérigo muçulmano.
"É algo inusitado na história do cinema iraniano", disse Nasser Shabani, gerente da empresa distribuidora de cinema Fardis-e Barin.
O lançamento do filme foi adiado em mais de um mês, enquanto os censores discutiam se deveria ou não ser proibido -- destino reservado a muitos filmes nacionais e à maioria dos ocidentais, vistos como demasiado provocantes ou corruptores para o público iraniano.
Mas "The Lizard", que recebeu o prêmio do público em um festival internacional realizado em Teerã em fevereiro, ganhou a luz verde depois de serem cortadas quatro cenas curtas que, juntas, totalizavam cerca de um minuto.
No filme, o ladrão Reza Marmoulak (Reza, o Lagarto) foge da enfermaria de uma prisão disfarçado de clérigo e passa a viver como tal.
Como pregador, seu estilo irreverente -- ele faz piadas sugestivas e, durante um sermão, chega a fazer uma referência a seu "irmão Tarantino" (falando do cineasta Quentin Tarantino) -- leva às gargalhadas o público iraniano, não acostumado a ver o clero ser alvo de brincadeiras.
"Adorei o filme porque fala de coisas que nós, pessoas comuns, nem sequer ousamos pensar", disse a designer Sanaz, 25 anos.
A linguagem direta empregada pelo preso foragido faz sucesso enorme com os fiéis e os atrai de volta às mesquitas em grande número. Nesse processo, porém, Marmoulak passa por uma espécie de transformação moral, dá as costas à vida do crime e descobre Deus.
O diretor Kamal Tabrizi disse que o êxito do filme se deve principalmente ao fato de ser a primeira comédia no Irã que focaliza o clero.
Mas ele afirmou que "The Lizard" também traz uma mensagem mais profunda à qual os clérigos iranianos fariam bem em dar ouvidos.
"De alguma maneira, este filme revela a distância existente entre o clero e o povo", Tabrizi disse à Reuters em entrevista telefônica.
"Talvez eu tenha querido dizer que os métodos mostrados por Marmoulak no filme poderiam ser usados na realidade para encurtar essa distância."
Alguns clérigos compreenderam o lado cômico do filme e disseram que, de modo geral, ele transmite uma mensagem positiva.
"Este filme ajuda os espectadores a perceber que os clérigos são como outras pessoas: existem bons e ruins", disse à Reuters o vice-presidente iraniano, Mohammad Ali Abtahi, um clérigo de escalão médio.
"Acho que 'The Lizard' é um filme muito positivo porque traça uma distinção entre os clérigos de verdade e aqueles que fazem de conta que são clérigos, mas que, no fundo, não o são."