O elenco ajudou a humanizar os horrores da II Guerra Mundial
Durante a II Guerra Mundial, o Brasil era aliado dos EUA, Inglaterra e França. Na época, mais de 25 mil soldados da Força Expedicionária Brasileira (FEB) foram mandados à Europa, para combater os inimigos representados pela Alemanha, Itália e Japão, os países do Eixo. Quase todos de origem pobre e, em sua maioria, despreparados para o combate, os pracinhas tiveram que aprender na prática a lutar pela sobrevivência. Depois de sofrerem um ataque de pânico coletivo, no sopé do Monte Castelo, os soldados Guimarães (Daniel de Oliveira), Tenente (Julio Andrade), Piauí (Francisco Gaspar) e Laurindo (Thogum) tentam descer a montanha, mas acabam se perdendo um do outros. Quando conseguem se reencontrar, precisam decidir se retornam para o batalhão e correm o risco de enfrentar a Corte Marcial por abandono de posto, ou voltam para a posição da noite anterior e se arriscam a enfrentar um ataque surpresa do inimigo. É quando conhecem o jornalista Rui (Ivo Canelas), que conta sobre um campo minado ativo e eles acham ser essa a chance de se redimirem da mancada que cometeram, mas muita coisa ainda está por acontecer e a guerra está longe de acabar.
Com este roteiro, o cineasta Vicente Ferraz rodou A Estrada 47. Com esmero técnico, obtido em condições de filmagem difíceis, ainda mais com orçamentos apertados como os do cinema nacional, Ferraz contou com um bom elenco, do qual fazem parte Daniel de Oliveira, Thogum, Julio Andrade, Francisco Gaspar, além do italiano Sergio Rubini e do alemão Richard Sammel. Com as armas de que dispunha, o diretor abordou um tema complicado: a presença brasileira na 2.ª Guerra Mundial, "encontrando um caminho justo, que evita tanto o ufanismo como o deboche. Essa soma de qualidades bastou para dar a Estrada 47 o prêmio principal em dois dos mais importantes festivais de cinema do País - o de Gramado e o Cine Ceará, ambos em 2014", segundo a crítica.
Ferraz passou a dimensão humana dos combatentes da FEB na campanha da Itália, apesar das controvérsias históricas a respeito dessa participação. Há historiadores que garantem ter sido a campanha brasileira uma moeda de troca de Getúlio Vargas para o financiamento norte-americano para a usina de Volta Redonda.
Mas foi uma participação digna, honrada e repleta de interesse humano. "A Estrada 47" captou tudo isso, além de ser um filme tecnicamente impecável.
Forças segregadas
Os pracinhas de uma unidade de engenharia de combate são os protagonistas. Trata-se de uma tradição típica, um verdadeiro clichê, dos filmes de guerra americanos: um grupo de militares é o centro da atenção. Pode ser um pelotão, um grupo de combate ou um mero destacamento de menos de uma dúzia de soldados.
O grupo, no caso americano, costuma incluir um caipira do interior, um malandro de Nova York, um "latino", um "italiano", um "judeu", ou, em raros filmes, um negro –as forças armadas americanas eram segregadas na Segunda Guerra; negros lutavam em unidades separadas.
O grupinho brasileiro inclui um sargento negro – as forças armadas brasileiras não eram segregadas – e pessoal de várias partes do país. A maioria da FEB foi recrutada no Rio, em São Paulo, Minas Gerais e Estados do Sul, mas havia bom número de nordestinos também.
O personagem mais cativante do filme é conhecido como Piauí (Francisco Gaspar), um sujeito humilde e bem-intencionado que cria um belo relacionamento com um prisioneiro alemão. Seus companheiros do sul o chamam pejorativamente de Paraíba.
O sargento negro, sambista, tem o significativo nome Laurindo (Thogun Teixeira). Os veteranos da FEB associam o nome a um momento de pânico de um batalhão que recuou de suas posições no alto de uma colina. Na época, havia um samba com o verso "Laurindo desce o morro". Depois, o batalhão se redimiu do apelido vergonhoso.
O pequeno grupo do filme também entrou em pânico. Para se redimir, eles se dão a missão de retirar minas de uma estrada, a tal 47. Na verdade, não havia estrada com esse número na região da FEB –claro, trata-se de ficção, com algumas licenças poéticas.
O agrupamento de soldados acaba recebendo por acaso um correspondente de guerra, Rui (Ivo Canelas). Pode ser uma homenagem a Rui Brandão, do "Correio da Manhã"; ou mesmo a Rubem Braga, do "Diário Carioca".
Nenhum desses correspondentes ligados à FEB teve acesso a situações perigosas. Não pegaria bem na ditadura Vargas ter um jornalista morto.
Epopeia da FEB
O jornalista Rui usa um jipe com o nome Osvaldinho. O especialista logo reconhece o nome: era o jipe do general de brigada Osvaldo Cordeiro de Farias, comandante da artilharia da FEB, que batizou o jipe com o nome do filho.
Nunca houve um filme brasileiro de guerra tão tecnicamente bem-feito. As cenas de combate são corretas; os tanques americanos são de fato o clássico M-4 Sherman. As cenas são filmadas em lugares que representam perfeitamente a Itália onde a FEB lutou.
– Um dia tudo isso será esquecido – diz um dos personagens.
Por pouco a previsão não aconteceu, embora poucos no Brasil de hoje se lembram ou conhecem a epopeia da FEB na Europa.
Tags:
Relacionados
Edições digital e impressa
Utilizamos cookies e outras tecnologias. Ao continuar navegando você concorda com nossa política de privacidade.