Rio de Janeiro, 09 de Setembro de 2026

Filme de Mel Gibson acirra sentimento anti-semita, diz rabino

Quarta, 25 de Fevereiro de 2004 às 17:35, por: CdB

O presidente do rabinato da Congregação Israelista Paulista, rabino Henri Sobel, teme que o filme "A Paixão de Cristo", de Mel Gibson, possa fazer com que pessoas que tomarem como verdade histórica a versão do filme desenvolvam um sentimento anti-semita.

- Não há dúvida de que o filme pode alimentar o ódio e o preconceito, principalmente em mentes predispostas ao anti-semitismo - afirmou Sobel. Apesar da convivência pacífica entre católicos e judeus no Brasil, ele acha que, no país, o grande perigo é a falta de informação.

Sobel ainda não viu o filme, mas, ao contrário de alguns líderes religiosos americanos, que pregaram o boicote, acha que ele deve ser visto, mas como uma obra de ficção.

- Há um terreno fértil para o ressurgimento do sentimento anti-semita por causa desse filme e por causa da nossa realidade social. Há muita gente que não sabe os fatos - afirma.

Sessão privada

O rabino deve assistir ao filme na semana que vem, antes da estréia nos cinemas brasileiros, numa sessão oferecida pela distribuidora do filme no Brasil ao rabino e a outros judeus na Congregação Israelita Paulista.

Depois de ver o filme, Sobel diz que vai convidar líderes evangélicos para conversar e esclarecer algumas dúvidas "baseado no Novo Testamento".

Isso não será necessário, na avaliação de Sobel, com líderes católicos, porque os dois grupos religiosos já mantêm um diálogo constante.

- Já temos uma definição consolidada do nosso trabalho entre judeus e católicos - explica.

A maior preocupação do rabino é que os judeus passem a ser vistos como culpados pela crucificação de Jesus Cristo. Uma versão que, como ele lembra, já foi revista oficialmente pela Igreja Católica desde 1965, no Concílio Vaticano 2º.

- O Mel Gibson projeta em seu trabalho a sua visão pessoal. Isso é natural. O que é errado é levar o espectador a acreditar que aquilo que ele vê corresponde à verdade histórica. Não corresponde não. Mais do que um erro, é uma irresponsabilidade - diz ele.

Incômodo

Sobel diz que se sente incomodado em ver os judeus da época de Cristo "serem retratados como vingativos e sanguinários, enquanto as virtudes do amor e da compaixão são atribuídas exclusivamente aos romanos".

É através do diálogo com os evangélicos que o rabino pretende evitar que o filme seja usado como instrumento de evangelização, como é intenção de grupos religiosos nos Estados Unidos.

Ele se preocupa menos, no entanto, com a Igreja Católica, tanto pelo diálogo entre as duas comunidades no Brasil como pela posição oficial do Vaticano.

- É importante lembrar que o filme contraria flagrantemente a doutrina da Igreja Católica Romana. Mas isso não é de se estranhar, porque Mel Gibson pertence a uma seita católica fundamentalista, que não reconhece o Concílio de 1965 - diz o rabino

Apesar dos temores, ele diz que não se deve exagerar a importância do filme. "As pessoas esclarecidas não vão mudar de idéia por causa de um filme. O perigo é que há pessoas não esclarecidas que podem ser envenenadas", diz.

Mas ele confia na boa e antiga convivência entre as comunidades e as lideranças católicas e judaicas no Brasil para aparar as arestas. "Não são duas horas numa sala de cinema que vão destruir todo o nosso trabalho de reconciliação", diz ele.

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