De tempos em tempos, grupos representativos de setores específicos da população, interessados em tipos especiais de filmes - por exemplo negros, gays, latinos - se organizam para promover o lançamento de um filme, enviando e-mails para chamar pessoas para assistir. O objetivo é mostrar aos estúdios que existe, sim, um mercado para filmes sobre negros, gays ou latinos.
Mas os cinéfilos adultos, que costumam reclamar que não têm o que ver nos cinemas dos shoppings, em geral não recorrem a esse tipo de mobilização para exigir filmes mais próprios para sua faixa etária.
Neste fim de semana, ``The Dreamers'', o trabalho mais recente de Bernardo Bertolucci, vai estrear em cinco cinemas nos Estados Unidos. Os cinéfilos sérios deveriam fazer o possível para elevar sua bilheteria por sala.
O fato de a Fox Searchlight estar lançando ``Dreamers'' deveria interessar a todos aqueles que vêem a ida ao cinema de um shopping como mais do que uma desculpa para comprar um balde de pipoca. Não é apenas porque o filme é o trabalho mais recente de um dos grandes mestres do cinema, nem tampouco porque conta a história de três estudantes, embriagados de cinema, envolvidos nas paixões revolucionárias de Paris no tumultuado ano de 1968.
Ainda mais importante é o fato de o filme estar sendo lançado com censura NC-17, ou seja, proibido para menores de 18 anos. As partes ousadas do filme incluem nudez masculina e feminina e uma cena de masturbação.
A classificação NC-17 foi introduzida em 1990 para substituir a classificação X. Esta, usada originalmente para indicar filmes de temática adulta imprópria para menores, acabou sendo vista como indicativo de filmes de teor sexualmente explícito. Os produtores de filmes pornôs aproveitaram a classificação para divulgar seus produtos, e em pouco tempo o X virou sinônimo de conteúdos de baixa qualidade dos quais os estúdios e as grandes distribuidoras preferiam manter distância.
Para remediar a situação, em 1990 a Associação das Produtores de Cinema dos EUA (MPAA) substituiu a classificação X pelo rótulo NC-17, que virou marca registrada. Mas a maioria das distribuidoras continuou a fugir da nova classificação.
Os grandes estúdios, de modo geral, vêm evitando lançar filmes com censura NC-17, além de exigir que suas divisões de filmes de arte ou independentes não lancem trabalhos que mereçam mais do que a classificação R (menores de 17 anos só podem assistir ao filme na companhia de pais ou responsáveis).
Em consequência disso, os cineastas sérios são obrigados a fazer cortes em seus filmes para garantir sua distribuição. E alguns trabalhos - como ``Kids'', de Larry Clark, e ``Felicidade'', de Todd Solondz - tiveram que procurar distribuidoras menores, quando seus diretores se negaram a fazer os cortes.
O sistema é repleto de hipocrisias. Os estúdios obrigam os diretores a editar seus filmes para que possam sair com censura R, mas depois incluem as cenas cortadas quando os filmes são lançados em DVD.
A Blockbuster não aluga filmes com censura NC-17, mas oferece ao público filmes não classificados e filmes com censura R cujas cenas extras lhes teriam valido a classificação NC-17, se tivessem sido lançados na íntegra.
Portanto, palmas para os executivos da Fox Searchlight. Pelo fato de não terem forçado Bertolucci a fazer cortes que possibilitassem a classificação R - que, por contrato, teriam o direito de exigir --, eles demonstraram a disposição de tratar o público adulto como adulto. E, com isso, descobriram que a resistência dos cinemas em exibir filmes com censura NC-17 é mais mito do que realidade.
Além disso, a verdade seja dita - pelo fato de divulgar a censura NC-17, eles podem até acabar atraindo jovens de 18 ou mais à procura de emoções fortes e, com isso, acabar expondo-os ao trabalho de um cineasta sério.