Festival de Berlim - Urso de Ouro é crítica ao Irã
Por Rui Martins - O Festival de Cinema de Berlim terminou num clima político, enviando uma mensagem inequívoca ao presidente iraniano, dando o Urso de Ouro e os prêmios de melhor atriz e melhor ator ao coletivo de atores masculinos e femininos do filme iraniano Nader e Simin, uma Separação.
Sem dúvida, o filme iraniano estava entre os melhores da competição e fazia parte dos favoritos entre os críticos de cinema, mas o exagero de premiar todo o elenco e o diretor não passou despercebido – Berlim ao premiar o filme aproveitava para marcar o apoio do júri ao cineasta iraniano Jafar Panahi, que deveria fazer parte desse júri não fosse ter sido preso no Irã e condenado a seis anos de prisão e a vinte anos de proibição de fazer filmes, num flagrante ato de violação dos direitos democráticos de expressão e de opressão a um artista.
Sábado, 19 de Fevereiro de 2011 às 17:22, por: CdB
O Festival de Cinema de Berlim terminou num clima político, enviando uma mensagem inequívoca ao presidente iraniano, dando o Urso de Ouro e os prêmios de melhor atriz e melhor ator ao coletivo de atores masculinos e femininos do filme iraniano Nader e Simin, uma Separação.
Sem dúvida, o filme iraniano estava entre os melhores da competição e fazia parte dos favoritos entre os críticos de cinema, mas o exagero de premiar todo o elenco e o diretor não passou despercebido – Berlim ao premiar o filme aproveitava para marcar o apoio do júri ao cineasta iraniano Jafar Panahi, que deveria fazer parte desse júri não fosse ter sido preso no Irã e condenado a seis anos de prisão e a vinte anos de proibição de fazer filmes, num flagrante ato de violação dos direitos democráticos de expressão e de opressão a um artista.
Logo no começo da cerimônia de entrega dos prêmios do 61. Festival Internacional de Cinema de Berlim, o apoio a Jafar Panahi e o protesto por sua prisão ficaram claros ao se colocar no centro do palco a cadeira vazia de cineasta com o nome de Jafar Panahi e se lembrar ter havido uma manifestação em seu favor, no segundo dia do festival. Antes da exibição de alguns filmes, aparecia por alguns segundos o nome de Jafar Panahi.
Premiado com o Urso de Ouro, o cineasta iraniano Asghar Farhadi repetiu praticamente o que já dissera na entrevista coletiva após a exibição de seu filme, lamentando a ausência do seu colega cineasta iraniano em Berlim, Jafar Panahi, que deveria estar também ali no palco, numa alusão ao grupo do júri, presidido pela atriz Isabela Rosselini, apresentado em conjunto ao público.
Logo depois, um dos atores do filme iraniano, afirmou ao receber o prêmio coletivo que, repetia uma frase de um artista italiano, no sentido de quando as coisas não vão bem num país o melhor para um artista é fazer bem o seu trabalho.
O filme iraniano trata da separação de um casal no Irã e mostra um país cuja classe média quer modernidade, enquanto a classe pobre continua apegada ao fundamentalismo religioso. Exatamente como ocorre nos atuais conflitos entre os Verdes e o presidente iraniano apoiado por aiatolás e imãs.
Béla Tarr, grande prêmio do júri
O cineasta Béla Tarr, considerado por muitos como o provável premiado com o Urso de Ouro, acabou sendo o prejudicado pela decisão do júri de marcar claramente sua oposição à política autocrática do governo iraniano.
Seu filme O Cavalo de Torino, inspirado num episódio da vida de Nietzsche e considerado como sua visão pessimista do fim do mundo ou do insuportável e efêmero cotidiano da vida, como dissera na entrevista à imprensa ao citar Milan Kundera, apesar de não prometer entusiasmar o grande público, marcava o apogeu de sua carreira de cineasta.
Visivelmente contrariado por receber o Urso de Prata do Grande Prêmio do Júri e não o Urso de Ouro, Béla Tarr se negou a ir diante do microfone para fazer uma declaração.
A melhor direção – Urso de Prata
O cineasta alemão Ulrich Koehler, nascido na África, com estudos na França e universidade na Alemanha, dirigiu o filme « africano » do Festival, rodado nos Camarões, Doença do Sono, e ganhou o Urso de Prata como melhor diretor.
Doença do Sono trata do sentimento de alienação dos europeus em longa missão humanitária ou vida na África e suas dificuldades em se definirem como africanos ou europeus. E igualmente da dificuldade dos filhos de africanos, nascidos da imigração na Europa, de se identificarem como africanos ao chegarem na África.
Seu filme aborda também a questão do desvio de verbas das grandes organizações humanitárias por Ongs locais ou entidades africanas encarregadas de aplicarem programas de saúde.
Melhor roteiro, câmera e production design
O prêmio de melhor roteiro, com Urso de Prata, foi para os autores do filme albanês The Forgiveness of Blood, Joshua Marston e Andamion Murataj. O filme era considerado um dos possíveis premiados e o simples prêmio de melhor roteiro decepcionou muitos críticos.
O prêmio de melhor câmera foi para Woyciech Staron, do filme em coprodução O Prêmio. E o de melhor production design foi para Barbara Enriquez, também de O Prêmio.Rui Martins, jornalista, escritor, correspondente em Genebra, convidado do Festival de Cinema de Berlim
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