Por Rui Martins - O filme alemão, Quem Senão Nós ?, é mais um exercício de autopsicanálise diante da carga deixada pelo nazismo, dirigido pelo diretor Andres Veiel, tomando como referencias personagens reais da história recente, num clima de ficção. Um forte concorrente ao Urso de Ouro. Os anos 60 foram, sem dúvida, um dos mais marcantes do século passado. Havia não só a guerra no Vietnã, o movimento pelos negros nos EUA com o surgimento dos Black Panther, as ditaduras no cone sul da América do Sul, como a libertação da Mulher, o uso da pítula anticoncepcional, os hippies, as drogas, o LSD e a revolução estudantil na França.
Quinta, 17 de Fevereiro de 2011 às 17:57, por: CdB
O filme alemão, Quem Senão Nós ?, é mais um exercício de autopsicanálise diante da carga deixada pelo nazismo, dirigido pelo diretor Andres Veiel, tomando como referencias personagens reais da história recente, num clima de ficção. Um forte concorrente ao Urso de Ouro.
Os anos 60 foram, sem dúvida, um dos mais marcantes do século passado. Havia não só a guerra no Vietnã, o movimento pelos negros nos EUA com o surgimento dos Black Panther, as ditaduras no cone sul da América do Sul, como a libertação da Mulher, o uso da pítula anticoncepcional, os hippies, as drogas, o LSD e a revolução estudantil na França.
É nesse contexto de rebeldia da juventude que se situa o filme alemão, exibido na competição do Festival Internacional de Cinema de Berlim. Começa com a juventude de um futuro editor de livros, Bernward Vesper, filho de um nacionalista alemão próximo dos nazistas, homem de preceitos rígidos e ações rudes que não hesita em matar com seu fuzil o gato der seu filho, que comera os passarinhos caídos do ninho de andorinha. Episódio nunca esquecido por Bernward.
Embora seu primeiro livro editado seja o de seu pai, a influência de Gudrun Ensslin irá pouco a pouco mudando o rumo da editora, que se especializa na edição dos livros dos revolucionários da época. Bernward e Gudrun vivem uma época num triângulo amoroso com a amiga de Gudrun, porém, o amor entre ambos não suporta essas aberturas por ser exclusivo e querer ser absoluto. Nessa época, nada se faz pela metade, nem se suporta se falar só de revolução, é preciso fazê-la.
Assim como na Itália, a democracia cristão se aliou aos comunistas, provocando a revolta das Brigadas Vermelhas, na Alemanha a união dos sociais-democratas com os democratas-cristãos provoca a revolta dos contestadores do capitalismo, numa Alemanha ocupada pelos aliados. Surge uma extrema esquerda impaciente que se perguta – quem poderá fazer a revolução senão nós mesmos, e quando senão agora ?
Gudrun, mãe do pequeno Feliz, com o marido Bernward Vesper, ideólogo de uma esquerda ponderada, não suporta a perspectiva de uma revolução adiada para o futuro. Ela acaba de conhecer Andreas Baader, homem de ação, radical e querendo uma mudança imediata. É a paixão entre ambos. Gudrun abandona o marido e o filho, une-se a Andreas Baader, cometendo atentados e assassinatos para acelerar a revolução.
Forte concorrente ao Urso de Ouro, Quem Senão Nós ? mergulha mais uma vez no passado alemão, numa tentativa de explicar os excessos de Andreas Baader e de Gudrun Ensslin, ela mesma filha de pastor que lutara pela Alemanha, na Segunda Guerra Mundial. Essa herança maldita afetou a primeira geração do pós-guerra, mesmo se, na política, muitos ex-nazistas conseguiam fazer esquecer seu passado e integrar o governo.
Rui Martins, jornalista, escritor, correspondente em Geneba, convidado do Festival de Cinema de Berlim.
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