As ruas de pedra da pequena Paraty, a 235 quilômetros do Rio de Janeiro, serão tomadas por escritores e leitores a partir desta quarta-feira, quando começa a sétima edição da festa literária (Flip) que movimenta a cidade histórica todos os anos, desde 2003.
A Flip começou como um pequeno e ambicioso encontro entre autores e amantes dos livros. Passados os anos, transformou-se no maior evento literário do Brasil.
Na atual edição, foram convidados 34 romancistas, ficcionistas, historiadores, jornalistas e quadrinistas para não apenas apresentar suas obras, mas debater questões sociais e políticas com um público que deve superar o de 2008, quando 20 mil pessoas deslocaram-se para Paraty para prestigiar a festa literária. O número de visitantes esgotou a capacidade hoteleira da cidade.
– Parece que a festa firmou-se pela qualidade de sua programação. Embora não tenham lido todos os autores que estarão na festa, as pessoas vão à Flip porque sabem que encontrarão discussões interessantes –, opina Flavio Moura, curador da festa.
Além da programação oficial, que ficou sob a responsabilidade de Moura, eventos paralelos movimentam a Flip, como o projeto educativo Flipinha, voltado para o público infanto-juvenil, a FlipZona, que estréia como espaço exclusivo para adolescentes, e a Off Flip, dedicado à produção artística alternativa.
Segundo a assessoria de imprensa do evento, visitantes e participantes deixaram em Paraty, durante a Flip de 2008, R$ 4,76 milhões. Mil empregos foram criados e 250 trabalhadores foram contratados temporariamente.
O custo da Flip foi de R$ 3,46 milhões no ano passado, mas subiu para R$ 3,76 milhões em 2009. O dinheiro foi captado com empresas públicas e privadas pela Associação Casa Azul, organização da sociedade civil de interesse público que atua em Paraty desde 1994.
O charme de Paraty, que respira cultura nos cinco dias da Flip, também ajuda a atrair o público, acrescenta Moura. A cidade, que é patrimônio histórico nacional, foi fundada em 1667. Viveu seu apogeu econômico devido aos engenhos de cana-de-açúcar. No século 18, viu escoar por suas águas o ouro e as pedras preciosas de Minas Gerais.
Além dos holofotes que cercam os cinco dias da Festa Literária Internacional de Paraty, há um esforço, durante todo o ano, de formação de novos leitores e valorização do patrimônio local. O resultado do trabalho de 7 mil alunos da rede de ensino de Paraty nas oficinas literárias e de artes plásticas deságua na Flipinha, destinada exclusivamente ao público infantil.
– A Flipinha não é somente um evento dentro da Flip. É um projeto educativo desenvolvido ao longo do ano. Duas linhas são fundamentais para os idealizadores: o incentivo à leitura e a valorização do patrimônio material e imaterial de Paraty –, disse a coordenadora-geral da Flipinha, Cristina Maseda.
A EBC - Empresa Brasil de Comunicação fará a cobertura dos eventos da Flip, com notícias diárias na Agência Brasil, TV Brasil e Rádio Nacional.
O contato com os livros é estimulado nas oficinas literárias. Em 2009, o projeto Mediação de Leitura atingiu 5 mil alunos de 12 escolas da cidade. Durante esta Flipinha, professores serão capacitados como mediadores para que o projeto não perca fôlego.
Crianças e adolescentes de Paraty cuidam ainda dos preparativos da festa. Máscaras e bonecos de papel machê com os rostos de escritores infanto-juvenis e de seus personagens são exibidos na Praça da Matriz e em outros pontos de visitação da cidade. O material é produzido nas oficinas de cenografia e ilustração das quais participam artistas locais.
Seguindo os passos da Flip, a Ciranda dos Bonecos da Flipinha também vai homenagear o poeta pernambucano Manuel Bandeira com personagens de sua obra espalhados por Paraty. Além dos bonecos de papel machê, outro destaque da Flipinha é a instalação da biblioteca voltada para o público infantil na Praça da Matriz.
Uma tenda abrigará, nos dias da festa, leituras de textos infantis que serão apresentados por escritores convidados. Abrindo a programação, haverá leituras da poesia de Bandeira. Na Flipinha, a escritora Ruth Rocha comemorará 40 anos de literatura. Seu livro Marcelo, Marmelo, Martelo, que já vendeu 1 milhão de exemplares, foi adaptado e será encenado durante a festa.
Os adolescentes terão, pela primeira vez, um espaço exclusivo na festa literária. A FlipZona vai oferecer ciclos de debate sobre novas mídias e tecnologia.
– A criança já lê o mundo ao redor, mas o nosso objetivo é transformar Paraty em uma cidade de pessoas com o gosto e o hábito da leitura. E é uma satisfação enorme ver que, com poucos recursos, é possível transformar a realidade de uma cidade –, comemora Cristina.
Com convicção, a coordenadora da Flipinha resume com uma frase o impacto da literatura sobre as crianças: – O universo literário vai transformá-las em cidadãos críticos.