Rio de Janeiro, 26 de Setembro de 2026

Festa de São João no Sertão Vivo

Quarta, 06 de Julho de 2011 às 10:01, por: CdB

"batapalmas,minha gente,bota fogo na fogueira
Ébonito o arraial de são João nas aroeiras”

A festa junina do Sertão Vivo, no SítioAroeiras, município de Orós-Ce, já é uma tradição na agenda do Projeto, queneste 2011 comemora seus 15 anos de existência, com várias ações de arte, cuidadoshumanos e ambientais. Temos como alimento principal a multimistura de memóriassagradas, sonhos e teimosia.

Neste ano, a festa teve um significado bemfamiliar porque reunimos oito dos nove filhos da Casa Mãe, para celebrarmos os60 anos do casamento de Pai Zezim com Mãe Suzana, celebrado em maio de 1951.

Os dias 21 a 26 de junho foram de boaconvivência, visitas aos locais de nossa infância, como o velho Riacho do Sacoda Onça, onde realizamos sempre nossa trilha ecológica, no qual está sendoconstruída uma passagem molhada, um tipo de barragem,por onde a água podepassar em tempos de cheia,sem barrar a circulação de veículos para as áreas do açudede Orós,onde estão sendo implementados projetos de criação de peixes, naComunidade de Jurema e outras da região ribeirinha da represa.

A visita mais simbólica se deu na tarde dodia 25, no Recanto São José, que está pleno de flores, pela passagem das boaschuvas no inverno deste ano. Em torno da cova de Mãe Suzana, lembramos momentosinesquecíveis de nossa convivência com ela e pai Zezim; firmamos o compromissode nos encontrarmos a cada dois anos, e de mãos dadas, recitamos de cor, algumasorações que eles nos ensinaram.

Durante todos os dias, foi veiculado o DVDda 6ª Jornada de Artes, realizada em março.

O DVD foi produzido por Ivo Sousa, nossoartista companheiro. O principal divulgador do filme é o Filipe, filho deThiago e Nena, que com menos de dois anos,entre o pequeno vocabulário, sabedizer e exigir a toda hora: "DVD,jornada!...”

No almoço do dia 23, contamos com a visitade Dom João José, bispo diocesano de Iguatu, que veio com um grupo de amigas doRecife, para festejar conosco, o seu aniversário natalício.

O Arraial, na noite de S. João, seguenormalmente um pequeno e simples ritual. O espaço enfeitado com bandeirinhasfeitas ali mesmo pelos jovens, reutilizando revistas usadas. A fogueira ecológica,montada com madeira da poda de algumas árvores, alimentos e bebidas típicastrazidas ou preparadas pelas mulheres, para a partilha na noite.

Já era escuro quando convidamos ospresentes para o acendimento da fogueira, lembrando o significado do fogo nanossa história humana. Tia Helena, com seus 84 anos lembrou algumas estrofes dobendito antigo de S. João, que seu pai e nosso avô Manuel Vicente cantava.Eliane Brasileiro fez um solo na flauta. Francisco do grupo de Capoeira Água deBeber, tocou o tambor. A mana Eunice que veio de Maringá-PR; com o esposo José fezuma prece. Gregório, o sanfoneiro, puxou uma música de Luiz Gonzaga. A primaLaureci, que veio de Guarulhos-SP, fez uma oração. Cantamos o refrão de umacanção que compus sobre o Profeta:

"JoãoBatista,eu sou, eu sou fogo, sou Jordão

Nodeserto estou gritando, ê: conversão!”

Cada pessoa pode lembrar nomes de pessoasamadas, cuja memória tornamos presentes. Juntos, num coro de palmas e vozes,entoamos o conhecido: "bate palmas, minhagente, bota fogo na fogueira, tá aberto o arraiá de São João nas Aroeiras...”

Aos poucos, o terreiro foi se enchendo degente, na maioria jovens e crianças, vindos de Guassussê e Palestina. O Grupode Capoeira Água de Beber, coordenado pelo nosso parceiro Francisco Machado dePrata, fez uma bela apresentação. No casamento, improvisado, um misto de teatrolivre e bonecos. Até o jumento do compadre Aldecir veio vestido a rigor. Osnoivos –Maria Gambá e Zé Preá- vieram, com seu cortejo, até a fogueira comopessoas humanas, ali, ao clarão do fogo, se transformaram em bonecos e deram umshow de alegria. Maíra puxou uma ciranda, lembrando as danças circulares játrabalhadas no Projeto Sertão Vivo. A quadrilha já estava ensaiada e comandada pelosjovens Leandro, Thiago e Mônica. Na janela do oitão, a fila foi se formando etodos recebiam as comidas típicas: mungunzá salgado e doce, aluá, quentão, bolo,sucos naturais. A exceção para o único refrigerante de caju S. Geraldo, do Juazeirodo Padim Ciço. O forró pé-de-serra chamou os dançarinos para o terreiro. Pelas22:00 horas a festa estava terminando sob uma chuva leve, que apagou a poeira, sembaixar o fogo da fogueira e dos corações mais afoitos.

No dia 24, juntamente com Eliane e Rafael,fomos tocar no encerramento da festa de São João Batista, na cidade do Cedro,que festejava os 90 anos de história.

O encerramento do Arraial é feito semprecom a celebração de algum compadrio e a circulação da casa, com as cinzas dafogueira, repetindo a expressão: "SãoJoão disse, São Pedro confirmou:nenhum mal entra nesta casa, que Jesus mandou!”. Alguns de nós trazemos devolta um pouco daquelas cinzas, temperadas com saudades, para nossas casasdistantes.

A certeza de que, cultivando as tradiçõessaudáveis, podemos alimentar nossas ações do presente e seguir mais firmes parao futuro que sonhamos construir no Sertão Vivo vai nos animando e fortalecendonossa esperança.

Na festa de S. Pedro, 29 de junho de 2011.

Tags:
Edições digital e impressa