O tradicional bairro do Rio Vermelho viveu seu dia mais especial do ano, nesta segunda-feira, com a realização da festa em louvor a Iemanjá, a Rainha das Águas Salgadas das religiões afro-brasileiras. O ar do bairro ganhou aromas de rosas e alfazemas e nas ruas, a presença de milhares de baianos e turistas. A festa de Iemanjá é uma tradição que remonta à década de 30, quando, preocupados com o desaparecimento de peixes, os pescadores do Rio Vermelho entregaram, pela primeira vez, uma oferenda à Rainha das Águas. De lá para cá, a festa só fez crescer, ganhou adeptos e divulgação no mundo todo. Este ano, a expectativa dos organizadores é de que tenham comparecido ao Rio Vermelho cerca de 300 mil pessoas.
Para atender à procura, os pescadores prepararam 300 balaios para carregar os presentes depositados pelos fiéis de Iemanjá. Entre eles, a cozinheira Ivonete dos Anjos, de 53 anos. Ela aguardou cerca de 40 minutos na fila para poder depositar três rosas brancas em um dos balaios que os pescadores levam para o alto-mar. "Venho aqui todo ano agradecer e pedir. Agora, como no ano passado, vim agradecer a Iemanjá por minha filha ter passado no vestibular de engenharia", disse, convicta da força da orixá.
A doméstica Maria José Pereira da Silva, 56 anos, suportava o calor de mais de 30 graus na fila há mais de 40 minutos, paramentada de baiana, com roupa de linho, lenço na cabeça e um cesto de rosas na mão. Adepta do candomblé, Maria José descobriu ser "filha" de Iemanjá (quando a entidade é o guia espiritual) há seis anos. E não demora em justificar a força de sua devoção. "Iemanjá fez, e continua a fazer, muito por mim. Mês passado minha neta caiu da laje e não sofreu um arranhão", contou.
Herança
A fé em Iemanjá é mesmo uma tradição soteropolitana. A pequena Maria Eduarda, de um ano e nove meses, depositou pela primeira vez um presente para a entidade. Ela foi levada à festa por seu pai, o agente de estacionamento Emerson Chavier Aguiar, de 27 anos.
- Não sou adepto do candomblé, mas freqüento a festa há 15 anos. Meu pai e minha mãe têm fé na Rainha das Águas e passaram essa devoção para mim - falou.
Este ano, o presente dos pescadores é uma imagem que representa a orixá. O presente é um dos segredos mais bem guardados do Verão baiano e só é revelado no dia da festa no Rio Vermelho. Vice-presidente da Colônia de Pescadores do bairro, Gilson Alves dos Santos, 67 anos, afirmou que a Rainha das Águas nunca recusou um presente dado pelos pescadores. E que também nunca deixou de retribuir com proteção e fartura a fé praticada por quem vive do mar.
- A gente dá o presente como agradecimento. Não pede nada porque ela já nos dá o mar, de onde tiramos nosso alimento e o sustento de nossas famílias", disse. "É ela também a quem nós nos apegamos quando corremos perigo no mar. Muitas vezes saímos para a pescaria com tempo bom, mas aparece uma frente fria e o mar fica revolto. Pedimos a ela e sempre nos é dada uma volta segura à terra - contou.
O vice-presidente disse que o crescimento da festa e a presença de pessoas de todo o mundo são motivos de orgulho e satisfação para os pescadores do Rio Vermelho.
- Iemanjá é uma moça vaidosa. Ela gosta de festa cheia, de receber muitos presentes, principalmente flores, espelhos, perfumes e brincos - destacou.
A fé e a beleza da festa em devoção a Iemanjá ganharam o mundo. A presença de turistas é cada vez maior como pôde ser atestada mais uma vez hoje. O casal Luís e Silvia Rodrigues veio para Salvador especialmente para participar da festa. "É a segunda vez que estamos na Bahia, mas a primeira que participamos dessa festa. Viemos especialmente para participar dessa homenagem a Iemanjá", contou Silvia.
- Estamos gostando muito. É muito linda, genuína e colorida. Também está muito organizada e bem policiada - comentou Luís, entre uma fotografia e outra que tirava para recordação. O casal, como muitos outros