Uma greve nacional dos ferroviários deixou caótico o transporte dos trabalhadores franceses nesta terça-feira, num novo desafio ao governo conservador, já abalado pelas três semanas de distúrbios nas periferias. Sindicatos e a empresa ferroviária SNCF alertaram o governo que a greve será prolongada se não houver aumentos salariais e garantias de que não ocorrerá uma privatização do setor.
Muita gente foi trabalhar de carro, provocando congestionamentos na região de Paris. Outros lotaram os poucos trens que circularam. A greve, a sexta da SNCF neste ano, começou na noite de segunda-feira. - Acho que seria a mesma coisa se a EDF [estatal elétrica] entrasse em greve e cortasse a eletricidade, disse uma usuária retida na estação Gare du Nord, em Paris. - Eles estão fazendo o povo francês de refém. Mesmo que entendamos suas exigências, é uma verdadeira vergonha, afirmou.
A SNCF disse que só um terço dos TGVs (trens de grande velocidade) estão operando. Entre os trens regionais, apenas um quarto circula. Já as linhas internacionais Eurostar e Thalys têm 80 por cento de funcionamento. Quatro centrais sindicais convocaram a greve. A maior delas, a CGT, pediu ao governo que inicie negociações sobre salários e pensões, dê garantias de que não haverá a privatização do setor e proteja os privilégios dos ferroviários.
Louis Gallois, diretor da SNCF, disse que a empresa perderá cerca de 20 milhões de euros (23,64 milhões de dólares) por dia de greve, convocada para durar 24 horas, mas que pode ser prorrogada.
-Queremos negociações reais hoje, e espero que Gallois tenha o desejo e os meios de responder às nossas reivindicações, disse Didier Le Reste, dirigente do sindicato ferroviário da CGT. - Do contrário, acho que os ferroviários vão decidir ampliar o protesto.
O governo de Jacques Chirac diz repetidamente que a SNCF não será privatizada, e o partido governista UMP (centro-direita) acusa os sindicalistas de estarem fazendo campanha para as suas eleições internas. - É uma greve sem uma justificativa real, porque nunca houve a menor intenção [de privatizar a SNCF], disse Bernard Accoyer, líder do UMP.
O primeiro-ministro Dominique de Villepin pode na verdade se beneficiar da antipatia popular à greve, evidenciada nas queixas dos usuários e nas páginas dos jornais, para obrigar os sindicatos a cederem.
Mas o governo já demonstrou a clara intenção de evitar uma onda de protestos trabalhistas, tão pouco tempo depois da pior série de incidentes urbanos em quase 40 anos, provocados por jovens dos subúrbios que se sentem excluídos da sociedade.
Villepin tem pouca margem de manobra no que diz respeito aos salários, pois precisa cumprir as metas de déficit público impostas pela União Européia. Ele também pouco tem a fazer sobre as queixas dos sindicatos contra os planos da União Européia de abrir o mercado de frete ferroviário à competição externa a partir de 2006.
Também são esperadas greves no metrô de Paris e nos trens de subúrbio da capital na quarta-feira. O governo enfrentou recentemente enfrentou greves de advertência que tiveram a participação de centenas de milhares de trabalhadores que se queixavam dos baixos salários, do desemprego de quase 10 por cento e da queda dos padrões de vida. Uma longa greve pode ser um mau prenúncio para a centro-direita, que já se prepara para as eleições parlamentares e presidenciais de 2007.