O escritor e jornalista Fernando Morais afirmou que nem na ditadura ele viu uma atitude como esta de retirar os exemplares de seu novo livro chamado "Na Toca dos Leões", no qual ele conta a história da agência de publicidade W/Brasil. A decisão foi do juiz Jeová Sardinha, da 7ª Vara Criminal de Goiânia, que ordenou o recolhimento a pedido do deputado federal Ronaldo Caiado (PFL-GO), que nega ter dado uma declaração ao publicitário Gabriel Zeillmeister, usado como fonte na obra de Morais e que cita o nome do político.
Segundo consta no livro, o publicitário afirmou que, em 1989, o político Caiado, então candidato à presidência da República pelo PSD, falou de um suposto projeto dele de "esterilização das mulheres como solução da superpopulação dos estratos sociais inferiores, os nordestinos".
O juiz Jeová Sardinha, da Ovídio Martins de Araújo, um dos advogados dele, disse que "essa frase publicada na página 301 do livro é ofensiva à sua dignidade, sua honra e sua moral".
- Sou um médico, exerço a profissão há 30 anos e minha mulher é nordestina. Ninguém que vai atrás de um publicitário, ainda mais um candidato à Presidência da República, faria um tamanho disparate como esse. É uma monstruosidade praticada contra mim - comentou o político, para quem a frase é uma "aberração".
Morais reuniu alguns jornalistas brasileiros em Paris para falar sobre o caso e disse que vai desembarcar no Brasil, no final do mês, com os R$ 5 mil para cumprir a decisão judicial, segundo a qual o autor terá que pagar este valor por cada manifestação dada à imprensa.
- Pagarei a contragosto, mas certo de que estou fazendo algo em defesa de um princípio da liberdade de expressão - declarou.
Para o escritor, o pior da sentença não é o recolhimento da obra em todas as livrarias do país, mas sim a proibição de falar sobre o caso, pois sua intenção não seria a de desafiar a Justiça.
- Fiquei estupefato, sobretudo com a decisão de me calar, que é algo jamais visto nem no auge da ditadura - decalrou Morais que definiu a decisão como "barbárie".
Caiado move duas ações cíveis contra o jornalista, a editora e o publicitário. O autor também responde por uma ação criminal por calúnia. Os advogados de Morais e da Editora Planeta do Brasil pediram a suspensão da liminar de apreensão dos livros. Eles também estudam processar o juiz e o deputado por danos morais e financeiros - uma semana após o lançamento, a obra estava em segundo lugar entre os mais vendidos.
Em nota enviada à imprensa, a Associação Nacional de Jornais condenou a decisão da Justiça de Goiânia de mandar recolher o livro "Na Toca dos Leões", de Fernando Morais, em todas as livrarias do país. A ANJ definiu a decisão como uma "grave violência contra o direito constitucional da liberdade de expressão".