Rio de Janeiro, 23 de Maio de 2026

Fernando Botero transforma ódio a Abu Ghraib em arte

Segunda, 06 de Junho de 2005 às 14:45, por: CdB

O abuso de iraquianos na prisão de Abu Ghraib enfureceu o artista colombiano Fernando Botero de tal modo que o levou a criar o que ele espera ser uma "testemunha permanente de um grande crime".

Botero, 73 anos, disse que foi tomado de surpresa pelo ódio enquanto lia um artigo num avião sobre os "horrores" perpetrados por soldados dos Estados Unidos contra os prisioneiros no Iraque.

- Pedi para a comissária de bordo um pedaço de papel e comecei a desenhar ali mesmo. Foi o começo de toda essa série. A raiva que senti no momento me fez tomar uma decisão - afirmou o artista colombiano conhecido por seus retratos voluptuosos e suaves.

Botero é mais conhecido por cenários pacíficos da vida nas cidades pequenas da Colômbia, povoados por padres, políticos e aristocratas corpulentos. Seus retratos suaves e esculturas bojudas estão em museus de todo o mundo. Desde outubro, no entanto, produziu 60 obras, incluindo 20 pinturas, de homens musculosos em celas de prisão escuras, atacados por cães ou empilhados no chão.

-A primeira coisa que tive de fazer foi tirá-los do meu coração, mas a arte tem essa capacidade de manter a acusação e espero que haverá impacto no longo prazo.No dia em que os jornais pararem de escrever sobre isso e as pessoas pararem de falar sobre isso, essa arte poderá servir como uma testemunha permanente de um grande crime que foi cometido.

Algumas das séries de Abu Ghraib serão exibidas ao público pela primeira vez em uma retrospectiva do trabalho de Botero que será aberta em Roma no dia 16 de junho. Depois devem ser levadas a Stuttgart e Atenas e provavelmente irão mais tarde para Washington.
Não é a primeira vez que Botero abandonou seus tradicionais temas pastorais. No ano passado, uma série que retratou massacres violentos e miséria foi exibida na Colômbia. Mas é a primeira vez que o artista toca em um tema internacional e político.

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