Rio de Janeiro, 08 de Setembro de 2026

Fernanda Montenegro conquista Berlim

Quinta, 12 de Fevereiro de 2004 às 20:46, por: CdB

A atriz Fernanda Montenegro comoveu o Festival de Berlim hoje, quinta-feira, com sua emotiva interpretação de uma mulher na faixa dos 60 anos aficionada pelo mundo do crime e amante de um juiz que ela espiona em "O outro lado da rua", de Marcos Bernstein.

Após conquistar em 1998 o Urso de Prata de interpretação por seu inesquecível trabalho em "Central do Brasil", de Walter Salles, Fernanda Montenegro está de volta ao Berlinale com uma história ambientada numa Copacabana fria e cinzenta. Co-roteirista de "Central do Brasil", Bernstein estréia na direção deste filme, que se apresentou fora de concurso.

Em entrevista coletiva oferecida após a exibição do filme em Berlim, a atriz explicou que sua personagem "é a típica representante da terceira idade que vive em bairros próximos do mar no Brasil, políticos, intelectuais, gente rica".

Mas esse círculo social "não é o paraíso", disse, porque esses bairros estão também habitados por classes decadentes, "viúvas de militares, secretários de Estado que perderam todo o poder político, muitos aposentados cuja vida está marcada pela solidão". E o filme, segundo ela, mostraria "a outra face de Copacabana".

Fernanda Montenegro interpreta uma informante da polícia que vive uma melancólica história de amor com um juiz suspeito de ter matado sua mulher, a quem ela espiona com lentes da janela de sua casa, como James Stewart no clássico de Alfred Hitchcock "Janela Indiscreta".

Sobre as motivações da protagonista para trabalhar pela polícia, a atriz explicou que "se trata de uma mulher que segue seu caminho na solidão mas pensa que deve haver justiça no mundo".

Com efeito, seu trabalho a converte em uma espécie de Miss Marple, a detetive das histórias de Agatha Christie, personagem literária que Fernanda Montenegro disse não conhecer.

Bernstein não pensava no filme de Hitchcock quando embarcou no projeto, e disse que "nas grandes cidades do Brasil há muito voyeurismo, os edifícios são muito grandes, estão muito próximos uns dos outros e nunca se pode fechar totalmente as cortinas, sempre se vê algo".

Para o diretor, o espírito de sua protagonista é "o de uma mulher movida pela justiça, pelo desejo de denunciar desde pequenos assaltos até a existência de redes de prostituição infantil".

A primeira pergunta dos jornalistas na entrevista coletiva foi sobre uma cena de amor entre Montenegro e o ator que interpreta o juiz, Raul Cortez - curiosidade despertada pelo caráter atípico de uma cena de sexo entre pessoas de uma certa idade no cinema.

"O sexo é importante, sem ele não estaríamos aqui, e se existe na vida real não vejo por que não deve existir nos filmes", comentou Fernanda.

O diretor, por sua vez, contou que a cena não estava na primeira versão do roteiro e que não sabia como dizer aos atores que lhe tinha ocorrido incluí-la, mas garantiu que eles aceitaram muito bem a idéia. "Foi muito divertido fazê-la, nós rimos muito", disse.

A atriz agradeceu ao diretor a oportunidade de viver essa personagem e essa cena, diante das poucas ofertas interessantes que, segundo ela, são feitas aos atores mais velhos. Cortez acrescentou que "é um preconceito que os velhos não possam ter sexo no cinema".

"No filme, não se tratava tanto do medo de mostrar o corpo, mas do medo de se entregar a outra pessoa" em sua "aproximação cautelosa", acrescentou o ator.

O cinema brasileiro está representado nesta Berlinale por filmes como o documentário "Fala Tu", de Guilherme Coelho, e o longa-metragem de ficção "Contra todos", de Roberto Moreira.

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