Uma discussão clássica chega aos Fóruns Sociais: existem direitos universais, que devem ser respeitados por todos, independentemente de seus hábitos e culturas? O tema chega, como não podia deixar de ser na atualidade, através do mundo islâmico.
O mais conhecido líder muçulmano na França, Tariq Ramadan, convidado a participar do Fórum Social Europeu, transformou-se na pauta favorita da imprensa local, acusando o Fórum de incorporar teses anti-semitas e fazendo da participação de Ramadan a mais esperada de todo o evento. Ramadan enviou um texto para o Le Monde e para o Libération, mas nenhum dos dois jornais o publicou, valendo-se no entanto de citações extraídas fora de contexto para tentar reforçar suas acusações a Ramadan e ao Fórum Social Europeu.
Attac, o principal movimento social francês e europeu, respondeu, reafirmando o caráter laico e de igualdade entre homens e mulheres que caracteriza os movimentos do Fórum, mas reafirmando o direito de Ramadan, que reivindica a representação dos jovens árabes das periferias de Paris, de estar presente e defender suas posições, que nada têm a ver com o anti-semitismo - qualificação usualmente atribuída pela grande mídia aos que criticam as políticas de Israel e dos EUA em relação aos palestinos.
A Attac ataca a grande mídia, por suas tentativas de associar o movimento com o anti-semitismo, de dividi-lo entre "bons" e "maus", jogando movimentos sociais contra partidos políticos.
Mas Ramadan tem que se enfrentar também com os movimentos feministas, que o acusam de preconceito em relação às mulheres e de posições conservadoras, ao defender o direito das mulheres muçulmanas de seguir usando véus. Em artigo publicado esta semana em Libération, três representantes do feminismo francês acusam Ramadan de, em nome do islamismo político e do direito e da necessidade de afirmar seu perfil cultural, discriminar as mulheres, propondo que elas se mantenham na posição subalterna tradicional em que sempre se encontraram. Ramadan responde que os véus são a forma das mulheres muçulmanas se protegerem do processo de vulgarização e de fetichização com que a propaganda ocidental as trata.
Emir Sader, professor da Universidade de São Paulo (USP) e da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj), é coordenador do Laboratório de Políticas Públicas da Uerj e autor, entre outros, de "A vingança da História" (Boitempo Editorial) e "Século XX - Uma biografia não autorizada" (Editora Fundação Perseu Abramo).
Feminismo versus islamismo
Por Emir Sader - Uma discussão clássica chega aos Fóruns Sociais: existem direitos universais, que devem ser respeitados por todos, independentemente de seus hábitos e culturas? O tema chega, como não podia deixar de ser na atualidade, através do mundo islâmico. (Leia Mais)
Sábado, 15 de Novembro de 2003 às 13:58, por: CdB